Eu não sou especialista, mas este fogo não é como os outros

Chamas ameaçaram o “porto seguro” da vila de Monchique

O medo do fogo faz parte do sentimento de ser monchiquense. Cresci com ele, com esse receio, numa casa junto à vila. Às vezes, à noite, o medo que o fogo deflagrasse nos sobreiros que rodeavam a casa deixava-me acordado. Olhava pela janela com medo de ver um clarão. Os meus pais descansavam-me: «estamos perto da vila. Se houver um fogo, eles dão logo o alerta e os bombeiros vêm e apagam».

A luz do posto de vigia da Picota, acesa durante as noites de Verão, visível da minha casa, descansava-me por vezes. Fazia sentido aquilo que me diziam. O conhecimento de quem conviveu toda a vida com o fogo acalmava os meus medos de criança e acabava por adormecer.

Em 2003, já era adolescente, e vi o fogo descer a encosta da Picota. Mas, antes que o incêndio se aproximasse, foi dominado pelos bombeiros.

Ardeu quase tudo em Monchique nesse ano, mas, à volta da vila, o verde da vegetação permaneceu. O meu sentimento de segurança saiu reforçado: a vila era um “porto seguro”.

Passaram 15 anos e, no sábado, dia 4 de Agosto, a profissão levou-me a Monchique por causa do incêndio que estava ativo na zona da Perna da Negra. Durante a manhã, o fogo lavrava em vales inacessíveis aos bombeiros, mas sem grande intensidade. No quartel dos Bombeiros, aguardei o briefing e, quando esperava ouvir de Vaz Pinto a confirmação de que o incêndio estava dominado, ouvi um discurso muito cauteloso, que não me descansou.

À tarde, em pouco mais de meia hora, a situação de acalmia desapareceu e o fumo cobriu o sol. As chamas aproximaram-se da Portela do Vento, onde estava instalado o Centro de Comando, que foi deslocado para o Centro de Meios Aéreos, na vila, no “porto seguro”.

Deixei a serra, sem imaginar que teria de voltar no dia a seguir. Mas voltei, e vi aquilo que não pensei que fosse possível: o “porto seguro” estava ameaçado, cercado por chamas, que progrediam a uma velocidade impressionante.

As labaredas subiam a encosta da Picota, sem dar grande capacidade de resposta às equipas de combate. O “Cerro do Touro”, na zona norte da vila, foi totalmente consumido em menos de dez minutos.

Em relação à casa onde cresci, de nada serviu o Posto de Vigia, a proximidade da vila e do quartel dos bombeiros. O fogo queimou os sobreiros que me acompanhavam no caminho para a escola. A casa da minha família sobreviveu graças ao trabalho do GIPS da GNR que, ainda assim, não conseguiu evitar que um anexo fosse consumido pelas chamas.

A manhã mostrou um rasto de destruição e, ao longo do dia, as notícias não deixavam antever uma noite mais tranquila. Não foi. Já à distância, acompanhei pela televisão nova entrada das chamas na vila, junto ao Convento da Nossa Senhora do Desterro. Este edifício, icónico, sobreviveu, tal como sobreviveu, parcialmente, ao terramoto de 1755.

Tal como José Chaparro, vereador da Câmara de Monchique, que fez críticas à forma como decorreu o combate ao fogo, não sou especialista  e deixo para os opinadores as análises que serão feitas ao longo das próximas semanas sobre a atuação da Proteção Civil.

Terá havido erros, talvez muitos erros, mas este fogo, com estas temperaturas e este vento, não é como os outros fogos que, ao longo de décadas, não chegaram a aproximar-se do “porto seguro”. Este fogo teve vontade própria, este fogo quis ser mais forte do que os homens.

Mas este fogo quis ceifar vidas e não conseguiu, quis queimar (ainda) mais casas, quis destruir (ainda) mais trabalhos de uma vida e não conseguiu. Quis destruir Monchique (Não vai conseguir!).

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