Abutre-preto já tem oito casais a nidificar no Alentejo

LPN constatou a «existência de oito casais nidificantes de abutre-preto na Herdade da Contenda, cinco em ninhos artificiais anteriormente instalados pelo projeto LIFE “Habitat Lince Abutre” e três em ninhos naturais»

Murtigão, durante a sua marcação e anilhagem na Herdade da Contenda – Foto: Eduardo Santos | LPN

Oito casais de abutre-preto nidificaram, em 2018, na Herdade da Contenda, no Alentejo, tendo assim duplicado o número de pares reprodutores na região, e representando actualmente cerca de um terço dos casais existentes em Portugal.

Dois destes casais conseguiram criar com sucesso, dando, deste modo, continuidade à recuperação desta ave no Sul do país, revela a Liga para a Proteção da Natureza (LPN), que durante anos promoveu o projeto LIFE “Habitat Lince Abutre”.

O Dia Internacional dos Abutres celebra-se anualmente no primeiro sábado de Setembro. Em 2018, esse dia é amanhã, sábado, 1 de Setembro.

Nesta efeméride, por todo o mundo, procura-se alertar a sociedade para a importância da conservação deste grupo de espécies, vitais para o ecossistema, mas que enfrentam sérias ameaças nas áreas onde ocorrem.

Por cá, a LPN destaca a conservação do Abutre-preto, «a espécie de abutre mais ameaçada de Portugal», dando a conhecer os resultados de mais uma época de reprodução no sudeste do Alentejo.

A monitorização feita pela LPN, em colaboração com a Herdade da Contenda e com o acompanhamento do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), confirmou, este ano, a «existência de oito casais nidificantes de abutre-preto nesta herdade, no concelho de Moura, cinco em ninhos artificiais anteriormente instalados pelo projeto LIFE “Habitat Lince Abutre” e três em ninhos naturais».

A LPN acrescenta que «quatro desses casais conseguiram fazer postura de um ovo (como é característico da espécie), dos quais nasceram duas crias. Estas crias, ambas machos, terão já ultrapassado os quatro meses de idade, devendo, em breve, deixar os seus ninhos com sucesso!»

Desde que, em 2015, a espécie voltou a reproduzir-se no Alentejo, após mais de 40 anos sem registo de reprodução a sul do rio Tejo, este é o quarto ano consecutivo que o abutre-preto cria com sucesso na região.

«É um resultado que vem reforçar o restabelecimento de um núcleo reprodutor desta ave no Alentejo, tendo sido possível, sobretudo, em consequência dos esforços de conservação desenvolvidos pela LPN, assim como da indispensável colaboração da Herdade da Contenda e da sua adequada gestão desta propriedade», salienta a Liga.

Ao longo do último ano, a monitorização da reprodução do abutre-preto e as medidas de conservação dirigidas a esta espécie na região foram realizadas no âmbito do projeto Orniturismo – Conservação, Proteção e Valorização do Património Ornitológico, co-financiado a 75% pelo Programa de Cooperação Interreg V A Espanha – Portugal (POCTEP) 2014-2020.

A LPN e a Herdade da Contenda são dois dos parceiros deste projeto, que tem por objetivo geral conservar, proteger e valorizar o Património Ornitológico presente na região transfronteiriça Alentejo-Andaluzia, com a finalidade de desenvolver e consolidar modelos de actividades turísticas sustentáveis, que possam contribuir para o reforço da economia de ambas as regiões.

Recentemente e na presença do ICNF, uma das novas crias de abutre-preto foi marcada com um emissor GPS/GSM cedido pela Vulture Conservation Foundation (VCF), no âmbito de um projeto financiado pela Fundação MAVA para o aumento do conhecimento e monitorização da ecologia, movimentos e mortalidade de espécies de abutres na Europa.

Na ocasião, foi também colocada uma anilha PVC verde com código em branco (E8), para sua posterior identificação no terreno, tendo a jovem ave sido batizada de “Murtigão”, nome do curso de água mais importante que atravessa a Herdade da Contenda, onde nasceu.

O emissor permitirá conhecer em detalhe os movimentos e as áreas utilizadas por este abutre-preto, esperando-se que forneça informação útil para a conservação da espécie. Até ao momento, foi já possível confirmar que iniciou os seus primeiros voos.

Os abutres são extremamente importantes para manter a sanidade dos ecossistemas, estando, no entanto, ameaçados de extinção em Portugal e sujeitos a diversas ameaças à sua sobrevivência, a maioria de origem humana, de onde se destacam o envenenamento ilegal e a escassez de alimento.

Também a utilização do diclofenac (um anti-inflamatório não esteróide) para o tratamento do gado representa um enorme risco para estas aves necrófagas no nosso país, em particular numa altura em que o Estado Português está a avaliar a autorização do seu uso na pecuária.

A ingestão de animais tratados com diclofenac provoca insuficiência renal aguda nestas aves, culminando na sua morte num curto espaço de tempo, tendo este medicamento veterinário sido responsável pelo dramático e abrupto declínio dos abutres no subcontinente indiano, o que levou a que tenha sido banido nessa região.

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HERDADE DA CONTENDA
A Herdade da Contenda é propriedade do Município de Moura e é gerida pela empresa municipal Herdade da Contenda.
De reconhecido valor natural, cénico e cinegético, corresponde a uma área com uma importância fundamental na conservação da biodiversidade da região.
Desde há longos anos Zona de Caça Nacional e Perímetro Florestal, a Herdade da Contenda é parte integrante e essencial para o equilíbrio ecológico da Rede Natura 2000 na margem esquerda do Guadiana.

 

LPN – LIGA PARA A PROTEÇÃO DA NATUREZA
A LPN é uma Organização Não Governamental de Ambiente (ONGA), de âmbito nacional, fundada em 1948, sendo a associação de defesa do ambiente mais antiga da Península Ibérica.
A LPN assume como missão contribuir para a conservação do Património Natural, da diversidade das espécies e dos ecossistemas e a defesa do Ambiente, numa perspectiva de desenvolvimento sustentável, que assegure qualidade de vida às gerações presentes e vindouras.

 

ABUTRE-PRETO
O Abutre-preto (Aegypius monachus) é uma ave necrófaga ameaçada, classificada no nosso país como Criticamente em Perigo.
Deixou de nidificar em Portugal no início da década de 1970.
Só em 2010 esta espécie regressou como reprodutora ao nosso país, onde nidifica apenas no Tejo Internacional (cerca de 15 casais), no Douro Internacional (1 casal) e, desde 2015, no Alentejo.

 

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