Primeira ânfora romana do tipo Dressel 1 intacta recuperada por arqueólogos em Portugal foi recolhida no Arade

Uma ânfora romana com 2000 anos, para transporte de vinho, o único exemplar completo até hoje recolhido em Portugal em […]

Preparação para a recuperação da ânfora completa Dressel 1 em Arade B – Foto: José Bettencourt

Uma ânfora romana com 2000 anos, para transporte de vinho, o único exemplar completo até hoje recolhido em Portugal em contexto de escavação, foi recuperada do fundo do rio Arade durante a campanha arqueológica subaquática que esteve a decorrer durante o mês de Junho.

Cristóvão Fonseca, o arqueólogo responsável pelos trabalhos, revelou ao Sul Informação que se trata de «uma ânfora do tipo Dressel 1 (datada do fim séc. II a.C./meados do séc. I a.C., produzida na costa tirrénica da Península Itálica, para transporte de vinho), um exemplar completo que até à data não tinha sido reconhecido em contexto de escavação arqueológica subaquática a nível nacional». «No Museu de Portimão há um exemplar deste tipo, mas falta-lhe o bocal. E em outros museus há outras, mas resultam de achados fortuitos, por exemplo de entregas feitas por pescadores, que as recolhem nas suas redes».

Esta ânfora foi recuperada no arqueossítio denominado Arade B e que o investigador descreve como «um sítio complexo, com vários contextos de naufrágio e fundeadouro romanos e modernos».

Mas este não foi o único resultado mais palpável desta campanha de arqueologia subaquática no estuário do Arade: no navio dos século XVIII-XIX denominado como GEO 5, foi recuperada «uma garrafa de vidro completa, presumivelmente in situ, que poderá igualmente ajudar a precisar a cronologia do navio», sobre a qual ainda não há certezas.

Pormenor da estrutura naval de GEO 5, com garrafa de vidro in situ – Foto: Cristóvão Fonseca

Igualmente importante foi o facto de o «elevado nível de exposição do navio de madeira GEO 5», cuja estrutura se encontrava agora, em grande parte, fora das areias e do lodo do fundo do rio, se ter revelado como «uma oportunidade para registar a sua estrutura naval e proceder à recolha de amostras, que, após análise, poderá constituir-se como uma oportunidade para identificar a sua origem», acrescentou Cristóvão Fonseca.

«Em 2004, quando estive a trabalhar no mesmo sítio, já tínhamos feito uma planta preliminar, mas agora, com novas tecnologias, quase 15 anos depois, foi possível fazer um registo mais pormenorizado e mais exaustivo», explicou.

Além daqueles dois arqueossítios, os trabalhos realizados durante o mês de Junho incidiram ainda sobre o Ponta do Altar B, um possível naufrágio de inícios do século XVII, e o navio Arade 23, também datável dos séculos XVIII-XIX.
Estes trabalhos arqueológicos permitiram «a identificação e recolha de dados e artefactos inéditos, que contribuem significativamente para o reconhecimento da importância histórica do rio Arade», disse ainda.

O arqueólogo sublinhou também que «ambas as tarefas, de escavação arqueológica e de registo de navios, não eram realizadas no Arade há mais de 10 anos, e têm sido poucas as iniciativas análogas em território português, revelando-se assim como uma importante iniciativa e um exemplo a seguir a nível nacional».

Registo do navio GEO 5 – Foto: Cristóvão Fonseca

Tal como já tinha sublinhado aquando da tertúlia promovida pelo Grupo dos Amigos do Museu de Portimão, sobre «Os barcos do Arade…48 anos depois», o arqueólogo Cristóvão Fonseca fez também questão de frisar agora, em jeito de balanço, «a importância deste trabalho, considerando a eminência da realização de dragagens a executar no âmbito do projeto de aprofundamento e alargamento do canal de navegação do Porto de Portimão».

Admitindo que a obra portuária é «essencial para o desenvolvimento do turismo local e regional», o investigador sublinha que essa intervenção «irá, todavia, afetar inevitavelmente vários destes sítios arqueológicos».

Por isso, devem ser «assegurados todos os trabalhos de salvamento e valorização dos vestígios arqueológicos», uma condição que garantirá que as obras portuárias poderão ser «um importante contributo na oferta turística de âmbito histórico-cultural do património do Algarve, nomeadamente com o incremento do número de futuros passageiros que entrem por via marítima».

Depois de um mês de trabalho intenso no terreno, seguem-se agora outros meses de investigação, no gabinete, tal o nível e a quantidade de diversos dados recolhidos nesta campanha de escavações subaquáticas. «Um mês de campo pode dar para um ano de trabalho de gabinete», assegurou Cristóvão Fonseca.

A ânfora Dressel 1, devidamente acondicionada dentro de água, nas instalações do Museu de Portimão – Foto: Marta Fiolić

A campanha de arqueologia subaquática realizada no rio Arade decorreu no quadro do protocolo de colaboração entre a Câmara Municipal de Portimão, através do Museu de Portimão, e a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH/NOVA), através do CHAM (FCSH/NOVA|UAc) e no âmbito do projeto “Um complexo portuário milenar no Barlavento Algarvio: a arqueologia do estuário do rio Arade”.

A campanha contou com a participação de alunos de arqueologia da FCSH e com o apoio de diversas instituições: Fundação para a Ciência e Tecnologia, Clube Naval de Portimão, Grupo de Amigos do Museu de Portimão, Ondanautica Lda, Clube Subaquático de Mergulho Portisub, Centro de Mergulho Subnauta, Capitania do Porto de Portimão, Administração dos Portos de Sines e do Algarve, Direção-Geral do Património Cultural e Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática.

 

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