Ministro da Cultura reencontra familiares durante homenagem ao seu avô no Ameixial

O grande objetivo era reconhecer o vasto legado cultural deixado por José Rosa Madeira a Loulé e ao país. Mas […]

O grande objetivo era reconhecer o vasto legado cultural deixado por José Rosa Madeira a Loulé e ao país. Mas a cerimónia de inauguração de uma estátua de homenagem a este louletano, que decorreu este sábado no Ameixial, a sua terra natal, foi também um momento de reencontro dos seus descendentes, entre os quais se conta o ministro da Cultura Luís Castro Mendes.

O membro do Governo esteve na aldeia do interior do concelho de Loulé para presidir à cerimónia e foi recebido com as devidas honras pelas entidades oficiais, mas também com abraços e beijinhos das primas e primos. E até houve direito a foto de família.

Foi nestas duas condições – de ministro e de neto – que Luís Castro Mendes esteve no Ameixial, acompanhado pelos seus filhos, no dia 16 de Junho. E se, enquanto membro do Governo, as palavras que deixou podiam ter sido proferidas por qualquer um dos seus colegas de executivo, as que deixou como descendente de José Rosa Madeira vieram do coração.

Luís Castro Mendes já não conheceu o avô, que nasceu em 1890 e morreu em 1941. Na verdade, ilustrou, poucos terão sido aqueles que se podiam gabar, com propriedade, de conhecer o homenageado. Isto porque o relojoeiro louletano era «um homem muito reservado» e era um mistério até para os seus próprios familiares.

Foi com espanto, ilustrou o atual ministro da Cultura, que a sua avó recebeu a visita de membros da loja maçónica a que pertencia o seu marido, após a sua morte, já que não tinha conhecimento de que José Rosa Madeira fosse maçon.

Ministro da Cultura reencontrou primos e primas no Ameixial

Isso não impediu Luís Castro Mendes de tentar conhecer melhor o seu avô, cuja respeitabilidade sobreviveu ao seu desaparecimento. E foi graças ao facto de ser, ele próprio, «um rato de biblioteca», que se aproximou do seu ancestral.

«O meu avô tinha livros sobre tudo, na sua biblioteca. Ele era relojoeiro, mas além de ser um homem de engenho, era também de conhecimento», disse o ministro da Cultura durante a homenagem, que o Sul Informação acompanhou.

Esta sua paixão por aprender e conhecer fazia com que estivesse «atento a tudo». «Corria estes campos e falava com todas as pessoas, a quem pedia as pedras antigas que tivessem encontrado», recordou.

Foi desta forma que José Rosa Madeira reuniu um vasto espólio de achados arqueológicos, entre os quais diversas estelas com Escrita do Sudoeste, com cerca de 2500 anos. Esta é a primeira forma de escrita conhecida na Península Ibérica, que está a ser estudada no âmbito do projeto Estela e que «ainda hoje está por decifrar».

Os achados foram depois partilhados com Manuel Heleno – «a minha mãe dizia que ele ia lá a casa e levava tudo» – e Leite de Vasconcelos, dois nomes maiores da arqueologia, em Portugal.

Muitas destas peças acabaram por ser doadas por Rosa Madeira a museus, entre os quais o Museu Nacional de Arqueologia, fundado por Leite de Vasconcelos e do qual Manuel Heleno foi diretor.

Os interesses de José Rosa Madeira não se ficavam pelos objetos inanimados, que o território guardava desde há séculos. Também tinha interesses mais atuais, como a fotografia e a criação literária da época em que viveu.

E foi esta sua faceta que o levou a recolher e registar os poemas ditos por António Aleixo, num trabalho feito em conjunto com Joaquim Magalhães, então reitor do Liceu de Faro. «Ainda tenho lá em casa vários poemas de António Aleixo manuscritos pelo nosso avô», contou.

Ao lado do ministro, estava o presidente da Câmara de Loulé Vítor Aleixo, que também acaba por entrar nesta história por via do seu avô, precisamente o poeta popular algarvio cuja obra José Rosa Madeira ajudou a imortalizar em papel.

O edil louletano fez questão de frisar que o homenageado «compreendeu o potencial de António Aleixo antes dos outros» e que é a ele que «muito se deve a coleção de estelas que hoje temos», parte das quais integram a exposição “Loulé. Territórios, Memórias, Identidades” patente no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, e que resulta de uma parceria entre esta entidade e o Museu Municipal de Loulé.

Os achados arqueológicos que há cerca de cem anos foram recolhidos por José Rosa Madeira são, hoje em dia, um símbolo de Loulé, em cujo território viveu há mais de dois milénios o povo que usava a Escrita do Sudoeste.

São, igualmente, uma das inspirações do Festival de Caminhadas do Ameixial, que há seis anos se realiza nesta aldeia do interior de Loulé.

O projeto escultórico do artista plástico Miguel Cheta inaugurado no sábado vem juntar-se a outras intervenções artísticas relacionadas com a Escrita do Sudoeste que têm sido feitas em espaços públicos, no âmbito deste festival.

À espera da inauguração

Esta peça vai, ainda assim, mais longe, até pela sua natureza. A escultura, em aço Corten, revela os múltiplos interesses de José Rosa Madeira, «através de um texto biográfico que também serve de contorno do perfil do homenageado enquanto ideia mais concetual e menos formal de busto», segundo a Câmara de Loulé.

O texto na escultura, da responsabilidade de Pedro Barros, arqueólogo e especialista em Escrita do Sudoeste, «apresenta-se de forma envolvente e delicada, permitindo assim que o espectador desfrute da paisagem e observe a sua constante metamorfose na sua relação direta com o tempo».

Esta é, para a Câmara de Loulé, uma «merecida homenagem a José Rosa Madeira na sua terra natal», que, desta forma, reconhece «o seu amor pela sua terra, a paixão pelas suas origens serranas e a atração pela passagem do tempo, fazendo dele um homem singular a quem o país deve parte da nossa história e identidade».

Da parte da família, nas palavras do ser representante Luís Castro Mendes, «foi bom reencontrar a memória do nosso avô. Obrigado pelo que fizeram!».

 

Fotos: Hugo Rodrigues|Sul Informação

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