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Startup brasileira escolhe Faro para produzir esfera de realidade virtual e partir à “conquista” da Europa

Só chegou a Faro há poucos dias, mas já não deverá de lá sair. A startup brasileira Motion Sphere, dona do dispositivo de realidade virtual sensorial e interativo, associado a uma plataforma de movimentos, que por estes dias se pode experimentar no centro comercial Fórum Algarve, vai criar uma unidade fabril no Algarve, para produção destes equipamentos, e fazer da capital algarvia a sua base para uma expansão para a Europa.

Beto Facci, diretor executivo da Motion Sphere, esteve ontem, dia 28 de Março, em Faro, para assinar protocolos com a Universidade do Algarve e com a Câmara de Faro, naquele que é o primeiro passo para a instalação neste concelho de uma área de montagem dos equipamentos.

A Motion Sphere é uma plataforma tecnológica multifacetada, com um formato em esfera, que tanto pode ser usada como unidade de entretenimento, para jogos, como pode servir para experiências de realidade virtual, com sensações físicas associadas, e até como apoio à investigação, em áreas como a psicologia.

A criação da área industrial para construir estas esferas, tecnologia patenteada pela empresa brasileira, motivará, segundo o gestor brasileiro, «um investimento de cerca de 3 milhões de euros. A unidade terá uma dimensão de 1250 metros quadrados e capacidade para produzir 20 a 30 equipamentos por ano». Empregará «15 a 20 pessoas, altamente especializadas».

As Motion Spheres que aqui forem montadas, à semelhança do que acontece com as que já são produzidas numa unidade similar no Brasil – neste caso, a capacidade de produção é de 15 a 20 por ano – ficarão, para já, dentro da própria empresa.

«O nosso modelo de negócio, neste momento, assenta no aluguer das esferas», revelou Beto Facci. Os equipamentos são instalados temporariamente, pela própria Motion Sphere, em determinado local, no âmbito de iniciativas ou de acordos com parceiros locais. Foi, de resto, neste registo que esta tecnologia se apresentou – e continua a estar disponível – em Faro.

No entanto, «há cada vez mais interesse da parte de empresas especializadas em entretenimento em adquirir equipamentos». Segundo o diretor executivo da Motion Sphere, uma grande cadeia de centros de entretenimento «com 86 lojas» já se mostrou disposta a adquirir esferas, «cinco para cada espaço que gere».

É que este é um equipamento com caraterísticas únicas no mercado, como explicou Beto Facci. «A esfera que trouxemos aqui a faro é uma plataforma de movimentos que pode simular forças de aceleração até 7G. Para o público em geral, nunca chegamos a esse nível. Dependendo da condução, chegamos aos 2 ou 3G».

Na Motion Sphere, «pode-se criar qualquer tipo de experiência: simulador de carro desportivo, de motos, de avião e de nave espacial».

A esfera que estará instalada no Fórum Algarve, em Faro, até ao dia 8 de Abril simula um carro de Fórmula 1, da escuderia McLaren, «com um motor de 900 cavalos». «Dentro da esfera está montado um cockpit real de um carro de F1, com volante, pedais e tudo mais. Também temos um ecrã curvo de 140 polegadas e áudio de cinema. Tudo isto permite proporcionar uma experiência muito próxima da realidade», disse o diretor executivo da Motion Sphere.

A startup brasileira também já testou a plataforma noutros registos. Beto Facci dá o exemplo de uma parceria que fez com a Volkswagen, em que foi criado um programa que levava as pessoas a passear dentro de um motor de um carro.

«A esfera tinha quatro lugares e as pessoas usavam óculos de realidade virtual. Eram recebidas por um robô, que anunciava que os ia miniaturizar. Viam as coisas a ficar maiores, como se tivessem diminuído, e voavam para dentro do motor, por onde passeavam. Tudo isto com sensações associadas, como calor, frio, vento e os sons», descreveu.

Para já, os empresários brasileiros pretendem focar-se no seu próprio modelo de negócio, embora não fechem a porta à venda de equipamentos a terceiros. E é aqui que entra Faro.

Segundo Harold Sato, diretor de negócios da Motion Sphere, esta startup nasceu em 2014, no Brasil, fundada por Beto Facci e pelo seu sócio, Jeferson Mazutti, que criou esta tecnologia como trabalho final de um curso superior.

Desde então, a empresa tem vindo a crescer e chegou aos Estados Unidos da América em 2016, onde também já contam com um polo de negócios. Em 2017, começaram os planos de expansão para a Europa e, por várias razões, Faro e o Algarve foram identificados pelos responsáveis pela startup como o local ideal para montar a base da operação europeia.

«A culpa foi do Miguel [Fernandes, da empresa Dengun]», diz, a rir, Beto Facci. «Eu conheci o Haroldo em 2015, em Orlando, onde temos instalações, e começámos a trabalhar juntos. Mas, no ano passado, ele teve de se mudar para Portugal com a mulher. Na altura ficou combinado que, quando começasse a expansão, ele voltaria aos EUA», contou o diretor executivo da empresa.

«Eu não conhecia o Algarve e nunca tinha vindo a Portugal. Mas, mal cá cheguei, foi amor à primeira vista», descreveu Haroldo Sato.

«Tem praia, sol, peixe e vinho. Tem lifestyle, no fundo. O Algarve é um hub internacional e não deixa nada a dever à Florida, onde eu vivia nos Estados Unidos. Está tudo conetado, tudo muito próximo. É um paraíso», disse.

Mais do que um local bom para viver, a região algarvia foi identificada por Haroldo Sato como um bom local para o desenvolvimento tecnológico. «Comecei a sondar o ecossistema empresarial e conheci o Miguel Fernandes e o projeto do Algarve Tech Hub. Passado algum tempo, pedi autorização ao Beto para lhe falar da Motion Sphere e o processo começou», descreveu.

Da esquerda para a direita: Miguel Fernandes, Haroldo Sato, Beto Facci, Rogério Bacalhau, Hugo Barros e Paulo Santos

Isto aconteceu há vários meses, altura em que a Universidade do Algarve, através do CRIA – Divisão de Empreendedorismo e Transferência de Tecnologia da UAlg, se envolveu no processo, a convite do fundador da Dengun.

«Assinámos um memorando de entendimento entre a UAlg e a Motion Sphere, bem como com a nova empresa que eles já criaram cá em Portugal. Este acordo contempla a área da transferência de tecnologia, de estágios, dinamização empresarial e outras componentes», explicou ao Sul Informação Hugo Barros, diretor do CRIA.

Este momento começou a ser preparado «há cerca de seis meses» no âmbito do projeto Algarve Tech Hub, que junta a universidade, várias empresas algarvias e a Câmara de Faro. A Motion Sphere vai criar uma unidade de desenvolvimento e investigação, que ficará no Pólo Tecnológico que a UAlg vai instalar dentro dos seu campi, como o nosso jornal anunciou em primeira-mão.

Como explicou Hugo Barros, a presença dos detentores da patente desta tecnologia abre diversas portas a desenvolvedores da região, tendo em conta que «a esfera, além de ser ela própria objeto de investigação e desenvolvimento nas áreas da engenharia mecânica e eletrónica, é uma plataforma aberta, que pode comportar diferentes aplicações informáticas». Ou seja, aceita software desenvolvido por terceiros.

Foi, por um lado, por terem identificado o crescimento de um ecossistema empresarial dinâmico, na área da Investigação, Desenvolvimento e Tecnologia (ID&T), ligado ao Polo Tecnológico da UAlg, que a empresa brasileira se decidiu fixar em Faro.

Também determinante foi a facilidade de exportação para outros países da Europa, bem como «a atitude de quem quer fazer da Dengun, da universidade e da Câmara de Faro». «Estamos a trazer uma semente e temos a certeza que ela caiu em solo muito fértil», acredita Beto Facci.

A autarquia farense não ficou quieta e desenvolveu contactos com a empresa, para convencer os seus responsáveis a instalar uma unidade de montagem no concelho.

«Hoje assinámos aqui um acordo, em que a Câmara Municipal se compromete a dar apoio à criação de uma indústria de criação destas esferas em Faro», resumiu o presidente da Câmara de Faro Rogério Bacalhau, momentos depois de selar o acordo com Beto Facci e Haroldo Sato, numa sessão que decorreu esta quarta-feira nos Paços do Concelho.

De caminho, a Câmara aproveitou o projeto que a Motion Sphere tem, de criar arenas de gaming, para se perfilar como candidato a acolher o primeiro espaço «do mundo», equipado com um conjunto de esferas conectadas.

A empresa brasileira já tinha intenção de instalar espaços destes «numa grande cidade dos Estados Unidos da América, Inglaterra, Dubai, Japão e China», mas mostra-se disposta a começar em Faro, o mesmo local onde se espera que, em breve, surjam as primeiras esferas Made in Portugal.

«Estamos a analisar em conjunto com a universidade a possibilidade de aceder a financiamento [de Fundos da União Europeia]. Numa perspetiva otimista, pensamos começar a construção da unidade dentro de 3 a 6 meses». O local onde esta indústria nascerá ainda não é conhecido, mas os promotores já estão no terreno à procura.

 

Fotos: Hugo Rodrigues e Pedro Lemos| Sul Informação

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