Emprego no turismo aumentou, precariedade manteve-se e salários subiram «um bocadinho»

Festas de recrutamento, open days, anúncios… a criatividade na procura de trabalhadores para a época alta do turismo é uma […]

Crédito: Depositphotos

Festas de recrutamento, open days, anúncios… a criatividade na procura de trabalhadores para a época alta do turismo é uma nova tendência. Em muitos casos, são prometidas carreiras duradouras nas empresas, mas, quando acaba o contrato, a grande maioria destes funcionários regressa ao centro de emprego (e subsídio). O ciclo tende a repetir-se no ano seguinte.

A falta de mão de obra disponível no Algarve obrigou as empresas ligadas ao turismo a ser mais criativas e afirmativas na procura de trabalhadores. Nas ações de recrutamento, são as empresas que procuram convencer os potenciais funcionários, através de vídeos ou testemunhos de colaboradores satisfeitos, de que aquele é o melhor lugar para prosseguir a carreira. A questão é: por quanto tempo?

Tiago Jacinto, do Sindicato dos Trabalhadores de Hotelaria do Algarve, explica que, no setor hoteleiro, são anunciados «milhares de postos de trabalho, mas o que verificamos é que são oferecidos contratos precários, com salários baixíssimos, que não dão segurança aos trabalhadores. Em termos de estabilidade, o emprego está cada vez mais instável e tem piorado. Os dados indicam que cerca de 80% dos postos de trabalho criados são precários».

Com pouca oferta, seria natural que os salários aumentassem, mas Tiago Jacinto diz que isso ainda não se nota. «Há empresas que pagam logo as indemnizações, pela não renovação do contrato de trabalho, faseadamente, juntando-lhes os duodécimos. Isto quer dizer que, ao fim do mês, os trabalhadores recebem 700 euros, mas, na prática, estão a receber salários mínimos, ou pouco mais».

Há, no entanto, quem defenda que o «emprego começou a bater à porta dos trabalhadores», estes ganharam uma maior opção de escolha em relação ao local onde vão trabalhar na época alta e isso tem aumentado a concorrência entre empregadores. Se isso se reflete nos salários, é outra conversa.

Ricardo Mariano

Ricardo Mariano, diretor geral da empresa de trabalho temporário Timing, que convive diariamente com as duas “faces da moeda”, empresas e funcionários, diz que «há uma competição maior no que toca a roubar funcionários, quando o Verão chega. Já no ano passado, se sentiu isso. Quem não tem funcionários, começa a pensar em todas as formas, umas mais bonitas, outras mais feias, de os conseguir contratar».

As formas de “aliciar” os trabalhadores variam: «pode ser através do tipo de contrato. Se há um vínculo de seis meses, é oferecido um ano. Mas estamos no Algarve, que é sazonal, e acaba por ser mais pela via do salário e da localização».

Ainda assim, os «tímidos» aumentos de salário, que Ricardo Mariano diz que estão a acontecer, «não se refletem de igual forma em todas as funções. Nas funções de menor qualificação, as empresas continuam a acreditar que conseguem contratar sem elevar o patamar salarial. Mais rapidamente um hotel se dispõe a pagar mais 100 ou 150 euros para uma função na cozinha do que 20 ou 30 euros para uma função de qualificação mais baixa».

O empresário diz que «até gostávamos de pagar salários mais altos, mas estamos condicionados pelas empresas empregadoras».

O Grupo Pestana é um dos grupos hoteleiros que tem apostado nas ações de recrutamento massivas. Pedro Lopes, administrador do Pestana Hotel Group para o Algarve, adiantou ao Sul Informação que, «até agora, contratámos cerca de 60 pessoas e vamos contratar mais 40 a 50 pessoas nesta fase».

Segundo Pedro Lopes, este ano, os salários oferecidos têm subido «um bocadinho», o que se deve «à concorrência». No ano passado, «já foi muito difícil contratar, e, este ano, estávamos mais prevenidos e começámos mais cedo com o recrutamento».

Já no que diz respeito à duração dos contratos oferecidos, o responsável diz que «há metade-metade entre posições sazonais e de maior duração», uma vez que «temos hotéis abertos na região todo o ano».

No entanto, há unidades que encerram portas na chamada época baixa e o destino dos trabalhadores é o Centro de Emprego. Mas em 2017, o número de inscrições no Instituto do Emprego e Formação Profissional, em Novembro, baixou no Algarve. Houve menos 4387 desempregados inscritos, o que representa uma diminuição de 19,1%, mas Madalena Feu, delegada regional do IEFP, considera que isso pode ter acontecido por diversos fatores: «as pessoas podem ter sido absorvidas, podem ter continuado a trabalhar noutro local, ou podem também não ter reunido as condições necessárias, nomeadamente tempo suficiente de trabalho, para requerer o subsídio de desemprego. O que é um facto é que houve menos inscrições».

Madalena Feu

Madalena Feu diz que não há dúvidas de que «o emprego aumentou, mas uma boa parte é emprego sazonal e precário. Por isso, queremos continuar a apostar e a implementar instrumentos de apoio para criar um emprego mais sustentável, duradouro e estável. No Algarve, grande parte do emprego que se cria é precário e isso preocupa-nos».

Mas não há, segundo a responsável, muito a fazer em relação a isso. «Não vamos conseguir mudar a situação, porque o Algarve é sazonal. Não há nenhuma empresa que possa aguentar todo o ano o quadro de pessoal de que precisa no mês de Agosto, mas devem procurar aumentar os quadros. Nota-se que, no Inverno, continuamos a ter turismo, há um maior movimento e sentimos, no contacto com as empresas, que o período de paragem está mais curto. Em Janeiro, começámos a tratar de ofertas de emprego e, a partir de Fevereiro, começámos a colocar as pessoas no mercado».

Tendo em conta a diminuição do período de paragem, isso pode levar as empresas a manter os postos de trabalho, utilizando medidas de apoio do IEFP como o Formalgarve ou os contratos emprego. «Os contratos sem termo são majorados e são instrumentos importantes para que se possam manter pessoas a trabalhar todo o ano», até porque, «se as empresas “agarrassem” os trabalhadores que contrataram em 2017, em 2018, podiam ter esse problema [da falta de mão de obra] minimizado», explica.

A procura de trabalhadores é muita, a oferta é pouca, como conseguem então os hoteleiros e empresas turísticas funcionar? Segundo Tiago Jacinto, «está a crescer a utilização estagiários para ocupar postos de trabalhos. Há estagiários a trabalhar, não a estagiar, ficando sozinhos nas posições. As empresas têm vindo a recorrer a eles para aumentar mais os lucros».

E… quando não há estagiários, há empresas de trabalho temporário. Ricardo Mariano diz que, quando acaba a fase de contratação, os contactos de empregadores com a Timing aumentam, mas «depende de cada hotel e do número de estagiários que recebem antes do início do Verão. Nos casos de hotéis que recebem muitos estagiários, não sentimos muito. Já os que não têm essa facilidade, ou não proporcionam estágios, acabam por recorrer mais depressa e mais cedo ao trabalho temporário».

Se há hotéis que recorrem ao trabalho temporário para colmatar posições que ficam vagas após as sessões de recrutamento, há outros que fazem da contratação deste tipo de trabalhadores uma prática comum e repetida.

«Há pessoas a trabalhar, anos a fio, no mesmo hotel, através de empresas de trabalho temporário. Há casos de trabalhadoras de andares que estão, há anos, a trabalhar no mesmo hotel com as mesmas funções, através deste tipo de empresas. Não há uma intervenção eficaz da Autoridade das Condições de Trabalho e os trabalhadores, por receio, não denunciam e não agem no sentido de corrigir aquela situação», ilustra o sindicalista Tiago Jacinto.

Pedro Lopes, administrador do Pestana Hotel Group para o Algarve

Carlos (nome fictício) representa um destes casos. Trabalha num hotel, na zona de Portimão, na área de manutenção e jardinagem, há oito anos, sempre contratado por uma empresa de trabalho temporário. As folgas são raras, trabalha fins-de-semana e feriados e, mesmo na época baixa, tem dificuldades em obter permissão para tirar férias. «Já foi eleito, pelos hóspedes, funcionário do mês, mas como não tem contrato com o hotel, não recebeu o bónus», conta a sua esposa, ao Sul Informação, exemplificando um dos problemas decorrentes deste tipo de situações.

Quando Carlos se dirige aos responsáveis do hotel pedindo um contrato, é-lhe negado, devido à política de contratação da empresa.

No caso do Grupo Pestana, Pedro Lopes assume que a política é recorrer a empresas de trabalho temporário «para a limpeza de quartos, que é variável ao longo do ano. As ações de recrutamento são mais focadas em posições para contratação direta por nós», como receção, ou cozinha.

Há quem acuse os trabalhadores de alimentar este ciclo vicioso, dizendo que trabalhar no Verão e descansar no Inverno, à sombra do subsídio de desemprego, é uma opção.

Ricardo Mariano discorda que seja essa a situação atual. «Isso era antigamente, agora já não existe. A maior parte das pessoas quer continuar a trabalhar. Havia quem preferisse fazer o 6+6, ou seja, trabalhar 180 dias para ganhar o acesso ao subsídio, ficado outros 180 dias em casa, recebendo 70% do vencimento, mas as regras de atribuição do subsídio de desemprego mudaram».

O empresário conta ainda que teve «pessoas que se sentavam à minha frente para uma entrevista, encaminhadas pelo IEFP, que me diziam:”não me estrague a vida, eu sou trabalhadora do hotel A, B, ou C e regresso no dia X”».

Agora, segundo Ricardo Mariano, «quando começamos a ligar no final do Verão, com outro tipo de oportunidades, se for de acordo com o perfil, os trabalhadores aceitam». No final de Outubro, «deslocamos pessoas, quem trabalha na hotelaria no Verão pode trabalhar em outras áreas na época baixa», ainda assim, assume, nesse mês «cessamos a atividade de centenas de trabalhadores na Segurança Social».

O emprego no Algarve está intimamente ligado ao Turismo. 2016 foi bom, 2017 foi melhor ainda e, para o diretor geral da Timing, 2018 «é o pior ano, dos últimos tempos, ao nível de recrutamento, e será também o pior dos próximos tempos, porque não há crescimento infinito e, eventualmente, no futuro, teremos menos turistas a chegar à região».

Nessa altura, poderá voltar a ser o desemprego a bater à porta dos trabalhadores, muitos deles sem um contrato mais estável para os segurar.

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