pub
Imprimir

Barragens bem compostas deixam (quase) todos tranquilos no Algarve, apesar da seca [com infografia]

Barragem de Odeleite |Foto: Martyna Mazurek

Muitos olham para as barragens do Algarve e veem-nas meio cheias. Mas há também quem olhe para elas e pense que estão já meio vazias. A seca instalou-se na larga maioria do território nacional e já chegou ao Algarve, que tem vivido um ano de muito fraca pluviosidade. Ainda assim, há muita água armazenada, o que leva a Águas do Algarve, os municípios e até associações de regantes a não se mostrar muito preocupados com a situação.

A mensagem dominante é que os algarvios podem ficar descansados, pois, em 2018, a água continuará a sair das torneiras e a chegar aos campos dentro dos perímetros de rega, mesmo que a chuva teime em não cair. Mas há quem não se tranquilize tão facilmente. «A única coisa que me poderia tranquilizar era se chovesse de forma substancial e normal. Sem ser isso, nada me vai deixar descansado», disse ao Sul Informação Fernando Severino, diretor Regional de Agricultura e Pescas do Algarve.

A DRAPAlg vê a água nas barragens, mas também regista a diminuição na água disponível nos lençóis freáticos e a falta deste bem em alguns locais da região, nomeadamente o Nordeste algarvio.

«O que se passa é que estamos na época que devia ser das sementeiras de Outono e de Inverno, e até de alguma regeneração natural. Se não chover, torna-se problemático para todo o Algarve e para as culturas de sequeiro e para a pecuária. Há um abaixamento nos furos que inspira alguma preocupação, mas sempre na esperança de que irá chover. Mas estamos bastante despertos em relação às medidas que seja necessário tomar», disse Fernando Severino.

«Se isto continuar, dentro de um ano podemos ter problemas. E, no Nordeste algarvio, já os estamos a sentir. Em termos de barragens, o Arade é aquela que está mais baixa. Todas as outras estão a um nível que permite garantir a agricultura. E a situação dos furos ainda não é alarmante. Mas há sinais de descida, pois não chove», explicou, à margem de uma sessão onde foram divulgadas as «Medidas Seca 2017», em Alcoutim.

O Sul Informação foi ao terreno e verificou in loco os problemas que os caprinicultores e fruticultores desta zona do Algarve estão a sentir.

Charca quase seca na zona de Martim Longo

A área que fica a Norte da Barragem de Odeleite, que até é das que estão mais cheias no país, é onde se nota mais os efeitos da seca. Em parte, isto acontece porque o perímetro de rega de Odeleite só chega aos agricultores com explorações a jusante da albufeira, situada no concelho de Castro Marim.

Noutros locais do Algarve, nomeadamente no Barlavento, ainda não há causa para alarme, na visão de José Correia, engenheiro responsável pelo setor da rega da Associação de Regantes de Silves, Lagoa e Portimão.

Segundo este responsável, a barragem do Arade «tem água suficiente para garantir a atual campanha» e há, ainda, a barragem do Funcho, «que está cheia e tem água para mais dois anos, mesmo se não chover nada», assegurou.

Os dados oficiais do Sistema Nacional de Informação de Recursos Hídricos revelam que, em Outubro, a albufeira do Arade estava com uma carga total de 18,2%. Já a da barragem do Funcho estava nos 72,3% e a da Bravura a 51,3%. No Barlavento Algarvio, há uma quarta Barragem, a de Odelouca, cuja água se destina, exclusivamente, a consumo humano.

«Neste momento, não temos problema de água no nosso perímetro de rega», disse José Correia. Mas, no limite, ou seja, se durante mais de dois anos não chover, poderão ter de ser tomadas medidas. «As primeiras a sofrer cortes são as culturas anuais, como o arroz, que há algumas, como aconteceu em 2005. Depois, dependendo da gravidade, terão de se tomar outras medidas», disse.

Também da parte da Águas do Algarve chega a garantia que a água que hoje está armazenada nas barragens é suficiente, a curto/médio prazo. «Podemos dizer – e descansar as pessoas – que vamos ter água para abastecer a população, também no próximo ano, mesmo que não chova», garantiu Teresa Fernandes, porta-voz da empresa.

«As barragens de Odeleite e Beliche, ambas de fins múltiplos [abastecimento humano e rega], estão muito bem, a cerca de 70%. Também temos a Barragem de Odelouca e as captações subterrâneas. Neste momento, e embora a chuva tenha sido reduzida neste último ano, nós temos armazenada cerca de 50 por cento mais de água do que em igual período do ano passado. Isto tem a ver com os grandes investimentos que a Águas do Algarve tem feito na região para acautelar estas situações de seca prolongada», enquadrou.

Neste caso, a situação é bem distinta no Barlavento e no Sotavento. Segundo revela a Águas do Algarve no seu site (dados de dia 3 de Novembro), a barragem de Odelouca (Silves) está com uma carga total de 37,67% e com uma carga útil de 23,59% – um ano antes estava a 42,48%/29,49%, respetivamente.

 

A barragem de Odeleite, que apesar de ter menor capacidade que a de Odelouca, também aguenta uma carga elevada, está nos 70,02% de carga total (64,18% útil). A de Beliche, que é bem mais pequenas que as suas congéneres, está com 61,99%/57,46% de carga total/útil. Nestas duas barragens, houve, de facto, um crescimento considerável da água armazenada, de Outubro de 2016 para o mesmo mês de 2017, de valores na ordem dos 40 e 35 por cento (carga total) para os atuais.

Teresa Fernandes tranquilizou a população, mas não deixou de avisar que «não é por isso que as pessoas devam gastar água sem cuidado e desperdiçar».

«Muito embora a água esteja disponível e seja suficiente para abastecer a região, é importante que as pessoas tenham a consciência de que este é um bem cada vez mais escasso, que devemos usar regradamente e com inteligência. E não é só agora, mas também quando chove», disse.

Para que isso aconteça, a Águas do Algarve tem vindo a apostar em campanhas. «Algumas, aquelas dirigidas ao público em geral, têm mais visibilidade, como a que fizemos no ano passado, no Verão, em todas as praias algarvias. Mas há também algumas que não são tão divulgadas na comunicação social», assegurou.

«Temos milhares de miúdos que vão todos os anos às nossas instalações, onde fazemos uma grande aposta na sensibilização para o uso eficiente da água. Temos a certeza que eles transportam essa informação para casa e os resultados têm sido muito positivos», acrescentou a porta-voz da Águas do Algarve.

Quanto às opções que se fazem no Algarve ao nível das espécies usadas em jardins públicos e privados, em muitos casos não adaptadas ao nosso clima e, como tal, autênticos sorvedouros de água, um tema cada vez mais na ordem do dia, Teresa Fernandes diz que passam muito pela consciência de cada um. «Nós fazemos uma sensibilização mais voltada para o consumo das nossas casas. Queremos que as pessoas consumam responsavelmente. Por isso, se temos consciência de que estamos num período de seca, parte de cada um saber o que se tem de fazer e ser responsável pelos seus atos», defendeu.

Convencer as pessoas a utilizar a água de forma mais cívica é o principal objetivo da «campanha permanente» que, segundo o secretário de Estado do Ambiente Carlos Martins, o Governo lançou. «Vamos ter dois tipos de campanha. Uma começa já, em meios de comunicação em suporte de papel, com spots na rádio e com uma mensagem na RTP, relativa à situação crítica que vivemos. Mas, depois disto, queremos reforçar a mensagem, para que as pessoas interiorizem comportamentos de poupança de água. É uma questão de cidadania de de respeito por um bem essencial à vida», disse o membro do Governo, numa entrevista à Antena 1.

Na mesma ocasião, o governante salientou que o exemplo tem de começar pelo setor público, que terá de trabalhar para evitar desperdícios, seja nas próprias redes de abastecimento, seja no uso diário deste bem. Afinal, não é raro ver sistemas de rega de jardins públicos que acertam mais nos passeios e nas estradas do que no espaço verde em si.

Em declarações ao Sul Informação, Jorge Botelho, presidente da AMAL – Comunidade Intermunicipal do Algarve, garantiu que as autarquias algarvias têm «sempre planos de contingência de poupança de água», que são aplicados quando necessário. «Nós também transportamos este bem para as nossas comunidades. Em Tavira, levamos água a uma série de montes para abastecer os depósitos, porque os furos não têm água», assegurou.

Jorge Botelho defendeu, por outro lado, que tudo tem de «ser enquadrado com o ano pluviométrico que tivemos no ano passado». «Grande parte do território está em seca severa, mas por esta altura, no ano passado, teve de haver descargas das Barragem de Odeleite e do Beliche, porque choveu muito», lembrou.

«Neste momento, segundo informação dada na Assembleia Geral da Águas do Algarve, nós estamos acima da cota do ano anterior. Choveu bastante aqui no Sotavento e estão a ser feitos transvases para o Barlavento, onde houve menos pluviosidade», acrescentou.

A situação não deixa, ainda assim, «de ser séria, embora não esteja previsto, para já, o acionamento de um plano de contingência e de emergência, pois ainda as coisas estão a funcionar e há reservas».

Mas «se a seca, se agudizar, seguramente há-de vir um plano restritivo de abastecimento e de corte nas regas, que esperamos que não aconteça».

Entretanto, o Outono vai-se gastando e o Inverno está à porta, sem sinal da chuva «substancial e normal» desejada por Fernando Severino. Mas isso não abala o otimismo dominante nem espoleta a vontade de trazer para região a discussão que já se faz a nível nacional sobre os desperdícios de água públicos e privados, seja nos sistemas de rega municipais que dão água ao asfalto, seja nos quintais abundantemente regados quando o sol está a pique.

Comentários

pub