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Algarve interior e idoso vota mais que o litoral, onde a abstenção foi rainha

Com a segunda mais alta taxa de abstenção do país (52,56%), até na hora de votar nas Eleições Autárquicas o Algarve mostrou como é desigual: os concelhos interiores ou periféricos foram aqueles onde maior percentagem de eleitores foi às urnas, em contraste com os concelhos do litoral, onde a abstenção foi mais alta.

Agora que os novos elencos das Câmaras e elementos das Assembleias Municipais e das Assembleias de Freguesia já estão a tomar posse, o Sul Informação pediu a Eugénia Maia Ferreira, professora auxiliar da Faculdade de Economia da Universidade do Algarve, diretora do Mestrado em Gestão Empresarial e cuja tese de doutoramento teve como tema a abstenção recuperável, que analisasse e comentasse os dados da abstenção na região algarvia.

Sobre esta assimetria regional da abstenção, Eugénia Maia Ferreira começou por constatar que «os concelhos de Alcoutim (22,45%), Monchique (27,95%), Castro Marim (32,41%), Vila do Bispo (34,33%) e Aljezur (39,45%) foram aqueles que apresentaram as taxas de abstenção mais baixas».

Em contraste, foram os concelhos do litoral a apresentar as taxas de abstenção mais elevadas, com Albufeira ao comando: 60,71% dos eleitores não foram votar.

Ora, salienta a docente da Universidade do Algarve, os concelhos periféricos «são também aqueles que, segundo dados do INE (2016), apresentam as mais altas taxas de idosos, com valores a variar entre 45,5% (Alcoutim) e 26,1% (Vila do Bispo)».
 


 
A explicação provável é que, tal como é apontado por vários estudos, «são os indivíduos mais velhos quem mais valor dá à democracia e ao direito ao voto. Os concelhos envelhecidos do Algarve corroboraram essa teoria, através das baixas taxas de abstenção».

Por outro lado, acrescenta Eugénia Maia Ferreira, também costuma haver mais abstenção quando as pessoas «pressupõem qual o candidato que vai vencer/perder as eleições e sentem que o seu voto não contribuirá para qualquer alteração aos resultados eleitorais». E a verdade é que todos os presidentes de Câmara do distrito de Faro foram reeleitos, com exceção de Luís Gomes, que não pôde concorrer por ter atingido o limite máximo de mandatos. Mas, mesmo aqui, mudando de presidente (foi eleita Conceição Cabrita), manteve-se o partido à frente da Câmara (PSD).

Voltando aos números: em relação às Autárquicas de 2013, a abstenção aumentou agora nos concelhos de Lagoa, Lagos, Loulé, Portimão, Albufeira e Tavira.

Nestas eleições, em todos estes concelhos, com exceção de Albufeira, «a diferença em termos de pontos percentuais, entre o candidato do partido vencedor e o candidato do segundo partido mais votado, foi superior a 20 pontos», sublinha a investigadora.

Assim, as diferenças entre vencedor e candidato em segundo lugar foram de 41,93 pontos percentuais em Loulé, de 37,55 em Lagoa, 36,34 em Tavira, 29,31 em Lagos e 20,02 em Portimão. «Estes valores mostram vitórias muitíssimo confortáveis», salienta a professora da UAlg.

Por outro lado, comenta ainda, «apesar de São Brás de Alportel e Silves não terem alterado significativamente a sua taxa de abstenção, enquadram-se no grupo dos concelhos de “candidatos eleitos à partida” (em São Brás de Alportel, o candidato vencedor obteve mais 33,36 pontos percentuais que o segundo candidato mais votado, e, em Silves, o valor situou-se nos 31,04 pontos percentuais)».

A professora Eugénia Maia Ferreira recorda também que, em todas as Eleições Autárquicas deste século XXI, «o distrito de Faro sempre apresentou uma taxa de abstenção superior à taxa de abstenção nacional». No entanto, foi este ano que se verificou «a maior diferença em termos de pontos percentuais», já que a taxa de abstenção a nível nacional foi de 45,05%, ou seja 7,54% abaixo da média regional algarvia (52,56%).
 


 
Mas a investigadora sublinha igualmente o papel que a falta de atualização dos cadernos eleitorais tem nos números da abstenção. É que o número de abstencionistas é calculado a partir da diferença entre o número de inscritos nos cadernos eleitorais e o número de votantes. «Se os cadernos eleitorais não estiverem atualizados, a taxa de abstenção divulgada é superior à taxa de abstenção “real”», aquela que efetivamente aconteceu.

Por isso, acrescenta, «se efetuarmos uma análise comparativa entre os dados da Comissão Nacional de Eleições (CNE) e os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), verificamos que o número de inscritos nos cadernos eleitorais de alguns concelhos do distrito de Faro (e do resto do País) está inflacionado».

No Algarve, o concelho de Faro é mesmo «aquele que apresenta o maior número de eleitores “fantasma”, cerca de 4400, seguido de Portimão com cerca de 2570, Albufeira com cerca de 1510, Loulé com cerca de 1220 e Vila Real de Santo António com cerca de 860».

Vejamos um exemplo: «se os cadernos eleitorais estivessem atualizados, a participação eleitoral no concelho de Faro passaria de 47,32% para ligeiramente superior a 51%, ou seja, a abstenção baixava em cerca de 3,5 pontos percentuais».

Partindo da questão dos cadernos eleitorais para os números das Autárquicas do passado dia 1 de Outubro, Eugénia Maia Ferreira constata que a taxa de abstenção mais elevada nestas eleições, no distrito de Faro, foi a verificada em Albufeira (60,71%).

«Os cadernos eleitorais de Albufeira apresentaram mais 2006 inscritos e somente mais 222 votantes que em 2013. Albufeira é o concelho que apresenta a menor taxa de idosos (16,1%), o concelho que mais aumentou a taxa de desemprego entre 2001 e 2016 (passou de 2,2% para 8,1%) e o segundo concelho do Algarve com o maior poder de compra (dados de 2013)», frisa a investigadora.

Eugénia Maia Ferreira

«A clivagem geracional (estudos mostram que gerações mais jovens tendem a ser eleitoralmente menos participativas) e as assimetrias económicas e sociais podem estar na origem do desinteresse político demonstrado pelos eleitores do concelho de Albufeira», frisa.

Em Vila Real de Santo António, Faro e Olhão a abstenção diminuiu, quando comparada com a sua homóloga de 2013. Mas os motivos para esta diminuição da abstenção nos três concelhos não parecem ser iguais, defende a professora da Universidade do Algarve

É que em VRSA, «a diminuição da abstenção não foi alheia ao facto de Luís Gomes não se poder recandidatar. A mudança, associada à incerteza, decerto que contribuiu para que a abstenção em VRSA diminuísse 3,61 pontos percentuais».

Esta «recuperação abstencionista» de Vila Real, em pontos percentuais, «só foi ultrapassada pelo concelho de Faro». Aqui, «a expectativa eleitoral foi grande», já que a experiência em todas as Eleições Autárquicas anteriores mostra que «a reeleição de um presidente de Câmara, na capital do Algarve, não é tarefa fácil».

Por isso mesmo, «os resultados eleitorais esperavam-se muitos disputados. Quando a disputa eleitoral é grande, a abstenção tende a diminuir. Faro foi o concelho que recuperou mais abstencionistas (em termos de pontos percentuais, recuperou 3,67 pontos) e também aquele que apresentou a menor diferença em pontos percentuais, entre os dois candidatos mais votados».

Olhão foi o único concelho do Algarve que diminuiu o número de inscritos nos cadernos eleitorais (-105) e simultaneamente aumentou o número de votantes (+805). Este movimento do eleitorado permitiu que Olhão recuperasse 2,39 pontos percentuais da abstenção, relativamente às eleições de 2013.

«Esta recuperação seguramente que ajudou ao aumento da diferença, em pontos percentuais, entre os dois candidatos mais votados. Em 2013, António Pina ganhou com uma diferença de 6,31 pontos percentuais relativamente ao segundo candidato mais votado, e, em 2017, quadruplica essa diferença», analisa Eugénia Maia Ferreira.

Sabendo-se que os eleitores mais idosos são quem «mais valor dá à democracia e ao direito ao voto», também há «estudos recentes sobre Portugal, que indicam que indivíduos mais confiantes na democracia e nas respetivas instituições são levados a votar». Por outro lado, já se viu que, quando a reeleição de alguém é encarada pelos eleitores como favas contadas, a abstenção tende a ser maior.

Em resumo, Eugénia Maia Ferreira, professora auxiliar da Faculdade de Economia da UAlg, depois de lançar algumas pistas para a interpretação dos dados, conclui: «várias análises se podem fazer à abstenção», já que «existem vários motivos que podem estar na sua génese».

Por isso, desafia, «urge fazer-se um estudo sobre as causas que levam os eleitores do Algarve a prescindirem do seu direito ao voto».

«Portugal é uma democracia representativa! Será?!», termina a professora universitária, em jeito de reflexão final.

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