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A paisagem que se ergue das cinzas

A paisagem é uma história.

Uma história que se escreve e inscreve em tudo o que nos rodeia e no mais profundo de nós. Muitas vezes sem o sabermos, sem disso nos darmos conta. Porque é uma expressão telúrica do meio em nós, mas também uma projecção do que somos sobre o que nos envolve.

Tem dimensões e significados ecológicos, históricos, sociais, culturais e sentimentais.

A paisagem que hoje vemos é apenas um momento dessa história, capturado entre tudo o que o que o antecedeu e tudo o que virá depois. É um processo contínuo, que vai gravando, em cada local, as marcas da passagem da gente que o vive. O que preservamos, o que destruímos, o que modelamos, o que cultivamos, o que semeamos, o que abatemos, o que sujamos, o que edificamos, o que transformamos na construção daquilo a que chamamos vida.

E porque é precisamente um registo vivo e permanente dos equilíbrios, ou falta deles, entre Homem e Ambiente e da forma como se vão ajustando, ou desajustando, ao longo dos tempos, é um património composto de aspectos positivos e negativos. Que devemos honrar de igual maneira, utilizando uns e outros para a devida aprendizagem.

Neste 20 de Outubro de 2017 comemora-se o 1º Dia Internacional da Paisagem, uma iniciativa do Conselho da Europa destinada a celebrar a paisagem justamente como expressão espacial da diversidade da nossa herança e património natural e cultural, constituindo um pilar fundamental da nossa identidade.

Esta data assinala também, e não por acaso, o 17º aniversário da elaboração da Convenção Europeia da Paisagem em Florença, documento que Portugal assinou desde logo, mas apenas ratificou em 2005. Porque somos muito adeptos dos papéis (depois disso já elaborámos até outros documentos de ficção própria, como a Política Nacional de Arquitectura e Paisagem), mas pouco ou quase nada do seu significado e menos ainda da sua implementação efectiva.

Também não por acaso, esta data coincide em Portugal com um momento particularmente decisivo para o futuro das nossas paisagens, no rescaldo de uma calamidade nacional. Paisagens que a nossa acção (mesmo que por omissão) transformou num risco iminente, como um fósforo que aguarda a ignição.

Estamos perplexos, em choque, atemorizados, revoltados, descrentes. Porque os erros de ordenamento e gestão das nossas paisagens do passado nos apanharam. Porque de tal forma nos demitimos e alienámos do processo, que não estávamos conscientes da profundidade e do quão profundamente enraizados esses erros estavam. Porque não concebemos que a sua expressão pudesse ser tão terrível e dramática.

Mas, apesar de encostados às cordas, sabemos que a vida segue. Que tem que seguir.

Por isso o momento é de reconstrução. Com a dor inscrita, mas com esperança, serenidade e determinação. E acima de tudo, com disponibilidade para o envolvimento.

Um envolvimento que faça a catarse colectiva alastrar das manifestações para um processo de leitura, pensamento, aprendizagem, compreensão da profundidade dos temas, por si só e na interligação com outros – conhecimento não falta, simplesmente temos desde há décadas verdadeiros especialistas a pregar aos peixes, já que é o Correio da Manhã a leitura preferida do País.

Um envolvimento que transforme donativos em participações públicas e presenças em processos de elaboração de instrumentos de gestão territorial. Um envolvimento que canalize a energia da revolta para a exigência na avaliação das propostas e protagonistas da gestão paisagística que nos são oferecidas.

Um envolvimento planeado, estratégico, sistemático, e não apenas reactivo.

Porque a paisagem vive também de cidadania e também com ela se desenha. A paisagem, afinal, somos nós.

É por isso que a paisagem que vamos ter no futuro se suspende assim na resposta a uma única pergunta: que rumo queremos tomar?

Que este Dia Internacional da Paisagem possa servir como catalisador dessa reflexão.

 

Autor: Gonçalo Gomes é arquiteto paisagista, presidente da Secção Regional do Algarve da Associação Portuguesa dos Arquitetos Paisagistas (APAP)
(e escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico)

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