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Obras na Ponta da Piedade avançam, mas oposição exige «paragem imediata»

A primeira fase das obras na Ponta da Piedade, em Lagos, já arrancou «por ser urgente requalificar» aquele ex-libris da cidade, defende Maria Joaquina Matos, presidente da Câmara Municipal. Ali vai nascer um percurso pedonal e ciclável, para «corrigir a desordem existente».

Só que, além das muitas vozes da sociedade civil que já se levantaram contra a intervenção, toda a oposição (CDU, Bloco de Esquerda, PSD, CDS, MPT, PPM e coligação “Lagos com Futuro”) está contra e exige a «paragem imediata das obras». 

A Ponta da Piedade, com as suas arribas rendilhadas, é um dos locais mais visitados no Algarve, mas também daqueles que está mais ameaçado, devido à pressão de centenas de pessoas que a visitam todos os dias, a andar por todo o lado, abrindo dezenas de trilhos, pisando as plantas, contribuindo para a erosão.

O projeto que agora está a avançar é antigo e foi «desenvolvido pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA), em articulação com a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Algarve», explicou Joaquina Matos ao Sul Informação.

Em 2012, o projeto «esteve para avançar», mas acabou por «ficar em suspenso». Em causa, estiveram «questões de ordem financeira do Estado central, da Câmara e de uma empresa que foi à falência», enquadrou a edil.

Agora, o projeto foi retomado «por iniciativa do Ministério do Ambiente», mas houve «adaptações», referiu. E o que é que será então feito em concreto nesta primeira fase?

«O principal objetivo é preservar o território do pisoteio irregular. Por isso, a área foi estudada e foi desenhado um percurso pedonal e ciclável, do Farol à praia do Canavial, que será feito no terreno, sem passadiços», explicou Joaquina Matos.

Ora, é precisamente contra esta opção que a oposição se manifesta. E acusa mesmo a presidente da Câmara de ter «induzido em erro os vereadores e os membros da Assembleia Municipal, pois sempre referiu tratar-se da construção de passadiços», lê-se num comunicado conjunto enviado às redações.

«Iniciada a obra, de imediato se percebeu não se tratar de passadiços, mas sim de alargamento de caminhos existentes e betonização dos mesmos. Consideramos que essa opção é ineficaz, por não conseguir balizar nem ordenar os percursos dos muitos milhares de visitantes que anualmente acorrem à Ponta da Piedade», acrescenta.

Quem visitar aquela zona litoral já nota a intervenção no terreno. A primeira fase das obras contempla a área que vai do Farol até à Praia do Canavial, onde está a ser colocada gravilha branca para a construção desse trilho. No futuro, será feito «betão poroso, permeável, que será pintado da cor do solo», explicou a edil. No fundo, uma intervenção semelhante à que foi feita no Promontório de Sagres e que resultou bem.

Ao longo de todo o percurso, também haverá «pinos de madeira, com cerca de 40 centímetros, para o assinalar e balizar», acrescentou.

É que, atualmente, não há um trilho identificado, pelo que se vê pessoas a andar por ali em diferentes trilhos – e alguns perigosos. Toda a arriba, garante a edil, foi «estudada, em termos da geografia, geologia ou da circulação das águas».

Esta intervenção também prevê a «qualificação, definição e hierarquização de caminhos e percursos (o que permitirá reduzir drasticamente o pisoteio indiscriminado que ocorre atualmente e que contribui para a degradação do espaço), promovendo também o ravinamento de algumas áreas».

Mas os partidos e movimentos da oposição, candidatos às Eleições Autárquicas de 1 de Outubro, no seu comunicado conjunto, discordam, afirmando que, «como esses caminhos betonizados também não vão impedir o acesso à beira da falésia, o pisoteio irá continuar pelos trilhos existentes, assim como prosseguirá a erosão daí decorrente».

Ou seja, defendem, «é um projeto que não dá resposta cabal ao que é mais importante combater: a erosão provocada pelo pisoteio desregrado de milhares de pessoas sobre uma área de falésia altamente sensível».

«Dizem que nada impede que as pessoas depois fujam daquele circuito, mas quando metemos passadeiras na estrada também nada impede que as pessoas a atravessem sem usar a passadeira», responde, por sua vez, a presidente da Câmara.

Joaquina Matos acrescenta que as obras não vão ficar por aqui, na Ponta da Piedade. Em dois dos pontos da arriba, com melhor visibilidade sobre o mar e a costa, serão «feitos dois miradouros de madeira, cobertos e com bancos». Estas duas zonas vão ser «sobrelevadas do solo» e aí «existirão painéis com informação cultural, histórica e natural sobre a área de intervenção».

Haverá também «trilhos mais pequenos de ligação a essas zonas, usando o mesmo material que se está a usar agora», adiantou a autarca.

Esses percursos mais estreitos e mais pequenos, de aproximação à arriba, «serão somente pedonais, sobretudo por razões de segurança».

A Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Algarve considerou, num parecer positivo sobre estas obras, que a «intervenção contribuiria para a prossecução dos objetivos da Reserva Ecológica Nacional, ao promover a disciplina de utilização do espaço, atenuando riscos para pessoas e bens, preservando setores de arriba mais sensíveis e promovendo a valorização estética do conjunto».

A segunda fase da obra será «mais complexa», uma vez que inclui uma área maior – do Farol até à praia da Dona Ana ou do Pinhão. Esse é um projeto «que ainda vai ser feito» e que terá de equacionar questões relacionadas com a «proteção da arriba, o estacionamento e a estrada», explicou a edil.

E se atrativos faltassem para ir à Ponta da Piedade, as obras deverão trazer mais um. É que a memória de Sophia de Mello Breyner, a poeta que escreveu sobre Lagos e tinha casa de férias naquela cidade, será ali lembrada. De que maneira, ainda é algo a ver, uma vez que o projeto não está, por agora, concebido.

Joaquina Matos não hesita em afirmar: «gosto muito deste projeto, porque requalifica e protege». Opinião diferente tem a oposição (CDU, Bloco de Esquerda, PSD, CDS, MPT, PPM e coligação “Lagos com Futuro”), que quer o fim das obras para que se faça uma «análise do projeto em execução» e se promova «a devida discussão pública».

Esta intervenção, «a ser concluída», vai «influenciar negativamente o futuro projeto de continuidade da intervenção ao longo da falésia da Costa d’Oiro», defendem os candidatos que querem destronar a socialista Joaquina Matos da presidência da Câmara de Lagos.

A conclusão da primeira fase das obras está prevista para o último trimestre deste ano, tendo um custo de 193 mil euros.

 

Fotos: Pedro Lemos | Sul Informação

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