Lagos de cultura para os próximos quatro anos

Decorrendo uma campanha para escolha de quem irá comandar os destinos da cidade de Lagos nos próximos anos, importa perceber […]

Decorrendo uma campanha para escolha de quem irá comandar os destinos da cidade de Lagos nos próximos anos, importa perceber como se organizam os partidos políticos e o que pensam eles na área de cultura: que cultura julgam ter e que cultura almejam projetar?

De modo a ficar esclarecido, comecei por pedir a todas as candidaturas à Câmara Municipal de Lagos que enviassem o programa eleitoral, tendo apenas obtido resposta do Bloco de Esquerda e dos independentes Lagos com Futuro e ainda conseguido recolher o programa do PS na sua página de Facebook. Começo assim por esclarecer que a análise que se segue foi feita com base nestes programas, ficando infelizmente de parte a possibilidade de analisar os das restantes candidaturas.

É notória a preocupação dos partidos em enunciar o preservação do património material e imaterial, a defesa das tradições locais e outros tantos títulos que soam bem. Porém, os programas eleitorais continuam, de uma forma geral, a ser pouco específicos e a não permitir ter uma escolha informada na hora de votar.

Seria desejável que o programa eleitoral de uma candidatura a um órgão com esta importância na vida dos cidadãos fosse um vasto debate acompanhado por pesquisa e ações concretas a implementar, pois as frases feitas informam os títulos das ações, mas pouco dizem da sua estratégia.

A necessidade de projetar a longo prazo contrasta com as políticas que têm sido implementadas em Lagos, que, embora permitindo alguns avanços, não deixam de ser casos isolados. Falo, por exemplo, do Mercado de Escravos, agora Núcleo Museológico da Rota da Escravatura, que veio oferecer um novo olhar sobre a cidade, mas que continua ainda sem estratégia e programa de longo prazo.

Será necessário perceber que os políticos em si nada poderão fazer se não tiverem uma equipa técnica capaz de prosseguir os seus objetivos, com vontade de sair dos gabinetes para construir programas culturais com os agentes da cidade e que não encarem um programa de cultura para a cidade como uma simples responsabilidade de animar culturalmente os espaços públicos e equipamentos de cultura municipais.

 

Novos equipamentos e os que já existem

Em termos de propostas de construção de novos equipamentos, nota-se um pequeno alívio em relação a anos anteriores, com a candidatura de Lagos com Futuro a propor um pavilhão multiusos e Joaquina Matos (PS) apresentando a ampliação do Museu Municipal para o edifício da PSP.

A ideia de criação deste pavilhão, a meu ver, não se apresenta como uma prioridade, uma vez que não consigo identificar a sua missão em termos de resposta e custo benefício, pelo que, se, por um lado, outras cidades souberam no tempo certo investir em equipamentos de macro-escala, a construção de um edifício destas dimensões numa cidade como Lagos, nos tempos que correm, só iria desviar recursos tão necessários para a programação de outros edifícios da cidade.

No caso do Museu Municipal de Lagos, o Partido Socialista propõe a construção de uma nova ala de arqueologia (projeto que, aliás, já está em curso), porém em nenhuma das candidaturas se fala na necessidade premente de construir um programa museológico e museográfico coeso para todo o museu.

Um museu só existe quando sabe o que fazer com a sua coleção. Com as pequenas modificações que foram sendo feitas ao longo da última décadas, entramos num impasse do estilo não é carne nem é peixe. Se, por um lado, o museu perdeu o seu charme na forma antiquada de apresentar coleções ao estilo do século XIX, por outro não encontrou um caminho que lhe desse uma nova identidade.

Além disso, outros museus na região, muito mais recentes, caminharam no sentido certo e conseguiram integrar os seus espaços na Rede Portuguesa de Museus. Sobre esta prioridade, colocar o Museu de Lagos nesta importante rede nacional, requerendo para isso uma reorganização global da sua missão, hierarquia e impacto social, nem uma linha foi inserida nestas candidaturas.

 

Património material e imaterial

O que fazer com o património local e com as tradições do concelho parecem ser preocupações transversais. Se, por um lado, o programa de cultura do Bloco de Esquerda lamentavelmente se resume a um parágrafo, não se conseguindo daí extrair muito sumo, parece ser consensual aos restantes partidos que temos diversos locais históricos e arqueológicos a precisar de investimento.

É preciso, porém, ter cuidado para não subscrever disparates como a proposta de Lagos com Futuro de criar um Museu Plurilocalizado onde se integre “Monte de Molião, Senhora dos Aflitos, Fortalezas e Muralhas, Igrejas, Edifícios históricos, Ciência Viva e outros, colocando-os num roteiro patrimonial e Museológico único, com informação cientificamente relevante”.

Compreende-se que é necessário criar roteiros turísticos que evidenciem os diversos monumentos e suas missões, mas não se percebe a vantagem de fundir organismos com missões tão distintas como Ciência Viva, Igrejas (muitas delas tuteladas pela Igreja Católica) e estações arqueológicas como o Monte Molião.

Neste domínio, apenas o Partido Socialista apresenta propostas concretas que indicam algum conhecimento do terreno, com a valorização de importantes estações arqueológicas, como o Monte Molião e Vila da Luz, através da criação de centros interpretativos.

 

Artes e o Centro Cultural de Lagos

Mais uma vez, encontramos o regresso do fantasma Bienais de Lagos, desta vez no programa de Lagos com Futuro.

Sobre este assunto já tive oportunidade de escrever neste jornal, e continuo a defender que existem eventos que fazem parte de um tempo. Se, por um lado, as bienais marcaram um momento importante da nossa história coletiva, por outro, o modelo de organização deixou de fazer sentido, uma vez que, entretanto, a cidade mudou, ganhamos um centro cultural e associações locais que têm ocupado alguma parte do sentido de fazer uma bienal.

Ainda assim, e porque o legado é grande e se encontra disperso entre Câmara Municipal e Exército português, seria desejável fazer um rigoroso levantamento das obras premiadas, do seu paradeiro e eventualmente juntar tudo num acervo para preservação futura.

A gestão dos equipamentos como Centro Cultural de Lagos aparece vagamente enunciada, e pouco se fala de projetos antigos que previam a ampliação do Centro Cultural para dar lugar a um Museu de Arte Contemporânea. Levanto o véu a este assunto, para que se perceba o que pretende o município fazer com o prédio que foi adquirido e que previa aumentar este importante equipamento municipal.

A missão do Centro Cultural de Lagos, em articulação com o Museu Municipal, deveria incluir um papel mais forte na apresentação do acervo da cidade e na construção de um programa de arte contemporânea, território de programação em que se poderia afirmar novamente, construindo projetos de cariz internacional, nacional e local, em sinergia entre si.

Localmente, o Partido Socialista apresenta a MALA expandida para outras zonas artísticas, fazendo de conta que, em edições anteriores, isto não foi testado. Exatamente porque foi testado e porque os artistas se reuniram faz uns bons anos, resultaram daí atas que deveriam ser tidas em conta para se saber que futuro dar a um evento tão importante quanto a MALA.

Afirmo aqui uma posição (não isenta, porque estive envolvido no processo da sua criação): que a MALA, como evento de partilha e promoção dos artistas que vivem ou são naturais de Lagos, caminhou sem rumo até se perder, quando, na última edição, resolveram aplicar a fórmula de concurso, que contrasta com a lógica da sua existência.

Lagos com Futuro confunde programação municipal com programação de associações como o LAC, que vem desenvolvendo um trabalho notável com os projetos de arte pública que esta candidatura resume a “pintura mural”.

Seria assim desejável que, quem escreve programas políticos para as artes, se informasse um pouco mais sobre arte urbana, “pintura mural” e graffiti, para saber exatamente o que defender.

 

Lagos e suas comunidades

Encontramos referências às tradições locais das diversas freguesias, focando a preocupação de defender sem filtro tudo o que nos chegou até aqui.

As festas e festivais parecem ser o grande motor de ânimo dos partidos, mas não se percebe como se quer afirmar Lagos e as suas freguesias na região e que relações internacionais carecem ser ampliadas.

Temos uma Feira de Arte Doce que se resume a um evento anual, um Festival de Descobrimentos que comunica a narrativa do bom colonizador e as Festas da Cidade que mais parecem uma reunião no Vaticano.

O conceito de comunidade local será sempre relativo, pois as comunidades não são impermeáveis e assimilam influências exteriores, reinventando-se entre si.

Que Barão de São João teríamos hoje sem o contributo dos diversos residentes estrangeiros, muitos deles mais conhecedores do terreno do que muitos ditos locais? Apesar de todos os erros urbanísticos, conseguimos hoje pensar na Praia da Luz sem a sua comunidade estrangeira flutuante?

Para podermos caminhar em frente, será necessário conhecer as comunidades que temos a residir no concelho, incluindo aqui todas as minorias. Lagos faz parte dos 46% de municípios que não responderam ao estudo nacional das comunidades ciganas realizado pelo Observatório das Comunidades Ciganas, e, apesar de ter investido num Museu da Escravatura, do impacto da comunidade negra na cidade até aos dias de hoje pouco se sabe.

Sem conhecermos quem vive em Lagos e quem nos visita, não poderemos operar respostas culturais direcionadas para os desafios que se avizinham, porque a cidade tem que ser um organismo vivo e não se pode construir apenas do passado.

 

 

Autor: Jorge Rocha é Artista e Produtor independente

 

 

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