Arte barroca que «muitos museus gostariam de apresentar» já está exposta em Faro [com fotos]

Não é apenas uma exposição. É “a” exposição, aquela há muito desejada. Depois de anos de muito trabalho, investimento e […]

Não é apenas uma exposição. É “a” exposição, aquela há muito desejada. Depois de anos de muito trabalho, investimento e de uma boa dose de diplomacia, o Museu Municipal de Faro (MMF) inaugurou este sábado a mostra “Pinturas do Barroco em Sevilha e no Algarve – Contactos, Coincidências e Discordâncias”, que integra peças de elevado valor (artístico, mas também económico) vindas do Museu de Belas Artes de Sevilha, uma referência internacional no que à arte deste período da história diz respeito.

A maior atração desta mostra, inaugurada ontem, dia 23 de Setembro, e que estará patente até 26 de Novembro, é o quadro “S. Jerónimo Penitente”, de Bartolomé Murillo, um dos grandes mestres do Barroco. Mas há muito mais para ver. A exposição conta com oito telas, quatro de pintores espanhóis e outras tantas de artistas portugueses, que foram pintadas nos séculos 17 e 18.

As obras escolhidas contam a história deste movimento, primeiro em Espanha, nomeadamente a escola sevilhana, uma referência durante a época de ouro do Barroco, e, mais tarde, em Portugal e no Algarve, onde a influência dos mestres de Sevilha foi muito grande.

«O nosso critério foi científico e técnico. Nesta exposição, estão representados quatro mestres de cada uma das escolas. E cada qual representa períodos, técnicas e estilos diferentes dentro do Barroco. Portanto, foi isso que quisemos mostrar: que há diferenças entre os vários mestres e entre os dois países. Nós escolhemos e depois fizemos o pedido, e o Museu de Belas Artes de Sevilha não colocou entraves», contou aos jornalistas Marco Lopes, diretor do Museu de Faro, à margem da inauguração da exposição.

Como já tinha deixado claro no seu discurso, o responsável pelo espaço museológico farense revelou que este era um desejo antigo da estrutura que dirige.

«A ideia surgiu há anos, pensando nas relações que já estavam documentadas e eram conhecidas entre o Algarve e Sevilha. Elas existem nas mais diversas áreas e uma delas é a pintura. Nós sabíamos que a pintura barroca que existe no Algarve tem influência ou foi beber muito à escola sevilhana», disse.

Tendo em conta que o Museu Municipal de Faro conta com «uma coleção conhecida», numa sala dedicada à arte barroca, os responsáveis pelo espaço museológico algarvio pensaram que «seria o momento oportuno» para dar a conhecer esta ligação. «Pensámos: a escola sevilhana está representada de forma extraordinária no Museu de Belas Artes de Sevilha, por isso, vamos tentar», ilustrou Marco Lopes.

A ideia foi, desde o início, usar algumas das obras existentes no museu andaluz para «fazer essa ponte» e fazer «uma exposição que documentasse esta relação histórica». A ideia foi amadurecendo ao longo dos anos, mas foi há cerca de dois que ganhou mais força e resultou em contactos entre os dois museus.

Além de ganhar uma exposição «que muitos museus gostariam de poder apresentar», o MMF alargou a sua rede de parceiros, na área museológica. «Já tínhamos uma relação com o Museu de Serralves, como Museu Nacional Machado de Castro e com a Fundação Millenium BCP e pensámos: porque não o Museu de Belas Artes de Sevilha».

Uma relação de confiança entre duas entidades de países diferentes, ainda que vizinhos, e que envolve itens de grande valor, não se constrói de um dia para o outro, como ficou provado neste processo.

«Foi com alguma surpresa que eles acolheram a nossa proposta, pois o Museu de Belas Artes está habituado a fazer algumas exposições com instituições de grande referência internacional, como os Museus Nacional de Arte Antiga ou do Prado. Não vou aqui esconder que nós somos um museu municipal, de cariz regional, que embora tenha um historial e os seus pergaminhos, teve de mostrar algum músculo e provar estar à altura da exigência, para garantir esta exposição», revelou.

Afinal, estamos a falar de obras com um elevado valor artístico e económico que não podem ser expostas sem alguns cuidados, nomeadamente ao nível da climatização da sala e da segurança. Estas condições técnicas para receção das peças foram garantidas pela equipa do Museu Municipal de Faro nos últimos dois anos, como apoio da Câmara de Faro e de mecenas.

«Houve alguns investimentos, nomeadamente no que toca à climatização. Quando falamos de obras desta importância, a climatização é um ponto de honra. Os valores da temperatura e da humidade não podem oscilar, porque isso poderia colocar em causa a sua integridade. E também houve a questão da segurança, do transporte, dos seguros e do restauro de algumas das peças que aqui estão expostas», explicou Marco Lopes.

Esta é outra das vitórias apontadas por Marco Lopes, já que parte dos quadros que compõem a exposição “Pinturas do Barroco em Sevilha e no Algarve – Contactos, Coincidências e Discordâncias” tiveram de ser recuperadas, o que permitiu não só dar-lhes «outro brilho», mas também, em alguns casos, aprofundar o conhecimento sobre as telas em questão.

«Das quatro telas que trouxemos de Sevilha, houve uma que veio sob a condição de que fossemos nós a patrocinar o seu restauro. Foi a primeira vez que este quadro saiu do Museu de Belas Artes de Sevilha», revelou.

«Às portuguesas, tivemos de as restaurar todas. A equipa do museu restaurou duas. As outras foram entregues a empresas particulares, especialistas em restauro», disse. Estas peças fazem parte do espólio de arte sacra da Diocese do Algarve, da Igreja da Sé de Faro e da Igreja de São Pedro, também na capital algarvia.

O presidente da Câmara de Faro Rogério Bacalhau salientou, por seu lado, «a luta muito grande» que foi necessária para garantir a vinda das obras de Espanha. «Ganhar a confiança do Museu de Belas Artes de Sevilha foi algo que demorou tempo, porque as obras, além do seu valor económico, têm um valor afetivo muito grande e fazem parte de uma vasta coleção. Não foi fácil e tenho de deixar uma palavra de apreço ao Marco Lopes e à sua equipa», disse o autarca farense.

«Esta exposição é um marco importante para o museu e para a cidade de Faro, porque no seguimento desta confiança, certamente será muito mais fácil abrir outras portas e fazer protocolos com outros museus, tanto a nível nacional, como internacional», considerou Rogério Bacalhau.

As obras que podem ser vistas nesta mostra são: “Jesus Entre os Doutores” (Mestre de Besançom, 1629-30); “S. João Baptista Criança Servido por Dois Anjos” (Juan del Castillo, cerca de 1640); “S. Jerónimo Penitente” (Bartolomé Esteban Murillo, cerca de 1665); “As Bodas de Caná” (Juan de Valdés Leal, 1661); “Instituição da Eucaristia” (Marco da Cruz, 1679); “Natividade” (pintor desconhecido, seguidor de Marco da Cruz, 2ª metade do século XVII); “Adoração dos Magos” (pintor desconhecido, último terço do século XVII); e “Visitação” (António Oliveira Bernardes, 1700-1710).

A primeira visita à exposição foi guiada pelo especialista em arte barroca Joaquim Caetano, do Museu Nacional de Arte Antiga.

 

Fotos: Hugo Rodrigues|Sul Informação

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