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Tim Motion, ou antes, o Senhor Timóteo regressou a Carvoeiro…e foi para lançar um livro de fotografia

Em 1961, ainda o turismo não era a grande indústria do Algarve, Timothy Motion chegou a Carvoeiro, que era então terra de pescadores que vendiam o seu peixe numa lota improvisada na areia da praia, comandada pelo senhor Cebola. Numa altura em que, além deste artista, poucos mais estrangeiros havia na aldeia, depressa Tim Motion se tornou no senhor Timóteo, acarinhado pelos carvoeirenses.

Aqui viveria até 1975, assistindo à transformação de Carvoeiro, de Lagoa, do Algarve e de Portugal, dos tempos da ditadura para os da democracia pós-revolução, dos tempos da pesca, da indústria conserveira e da agricultura, para os do turismo.

Ontem, Tim Motion voltou para lançar o livro de fotografia «Algarve 63», editado no âmbito dos Encontros de Fotografia de Lagoa, e que reúne, num álbum de grande qualidade gráfica e editorial, 63 imagens por ele fotografadas nos anos 60 e 70, a preto e branco, com a sua máquina Leica IIIc, em todo o Algarve.

No texto «À descoberta do Algarve», que escreveu para este livro de grande formato, Tim Motion recorda como chegou a Carvoeiro pela primeira vez, ainda em 1961: «Na sequência de diversas coincidências, de contactos acidentais e fortuitos, de uma bela rapariga, do empréstimo de um automóvel “clássico” e de um impulsivo virar para Sul ao atravessar Lagoa, avançámos entre pomares de amendoeiras e laranjeiras e tive sensações incrivelmente positivas quando cheguei a Carvoeiro».

«Foi como se tivesse ficado ofuscado por um raio de luz», recorda. Mas a experiência até nem foi totalmente boa: «tínhamos acabado de passar junto à fábrica conserveira, cujo cheiro não era nem agradável nem acolhedor, e de diversos edifícios a pedir obras de conservação e caiação».

 

No ano seguinte, regressou «com os meus cavaletes e outros materiais de pintura, e com uma saborosa sensação de liberdade».

Em Carvoeiro, também devido a uma série de coincidências (e porque então os estrangeiros eram raros naquela aldeia litoral…), acabou por conhecer e fazer amizade com o artista plástico irlandês Patrick Swift. Tão ao jeito dos carvoeirenses de então, que não falavam inglês, Patrick depressa foi adotado pelos locais como «o senhor Patrício», tal como Tim era o senhor Timóteo.

«A nossa (minha e do Patrick) descoberta do Algarve, em 1963, pôde ocorrer porque eu possuía um dos dois únicos automóveis que existiam nesses tempos na Praia de Carvoeiro e porque também tinha uma máquina fotográfica (…) destinada a “apontamentos” rápidos de paisagens».

Foi isso mesmo que Tim Motion recordou esta sexta-feira, num 14 de Julho tórrido, na inauguração da exposição e lançamento do livro «Algarve 63», que decorreu no Centro de Interpretação Ambiental do Parque Municipal do Sítio das Fontes, em Estômbar (Lagoa). «São fotografias que estiveram no armário durante 50 anos», recordou o autor.

Falando em português fluente, Tim Motion fez questão de sublinhar ainda que estas fotos «não existiriam se Patrick Swift não resolvesse fazer o livro. Eu era pintor, tirava fotografias mas apenas como notas de paisagem». E de que livro se tratava? Da obra «Algarve, a Portrait and a Guide», escrito pelo sul-africano David Wright, por Swift (que também fez desenhos para ilustrar) e com fotos de Tim.

 

«O trabalho que eu fiz para o livro de Swift e Wright foi essencialmente o de um documentarista dedicado a capturar momentos da vida das pessoas, embrenhadas nas suas atividades do dia-a-dia, quer tivessem ou não consciência de estarem na presença de uma máquina fotográfica», acrescenta Tim Motion, no livro.

Depois do trabalho feito para «Algarve, a Portrait and a Guide», continuou a fotografar «a vida e a paisagem da região na década de 1960, e também alguns “instantes” do período pós-revolução de 1974». São algumas dessas imagens que podem agora ser descobertas no livro «Algarve 63», muitas delas inéditas, ou na exposição patente no Sítio das Fontes. E, apesar de muitas fotografias terem 50 anos, há por lá rostos ainda reconhecíveis, como o Padre António Martins de Oliveira, que então era pároco e que hoje dá nome à escola secundária de Lagoa.

Ontem, no lançamento do livro e abertura da exposição, Tim Motion reencontrou-se com velhos conhecidos – ou com os seus filhos e netos -, mas também trouxe à memória de muitos, hoje na casa dos 60 anos ou um pouco mais, os tempos em que o irlandês, que além de artista plástico e fotógrafo era ainda músico, foi o dono da primeira e mais famosa boîte do Barlavento algarvio, o «Sobe e Desce», em Carvoeiro.

Na abertura da mostra, que marcou também o início de mais uma edição dos Encontros de Fotografia de Lagoa, Lurdes Cristiano, em representação da Universidade do Algarve (parceira da Câmara de Lagoa nos Encontros), disse que, ao ver o livro de fotografia «vi o país nos anos 60 e 70, os rostos que, na minha memória, guardo dos anos 60, e depois o salto dado nos anos 70, com o desabrochar de Abril».

 

Francisco Martins, no lançamento do livro e abertura da exposição

Nuno Loureiro, diretor dos Encontros, recordou que «fazer um livro é uma coisa que dá muito trabalho», nomeadamente com toda a «tarefa de escolher e de sequenciar as fotografias». Na raiz deste projeto, pago pela Câmara de Lagoa, Nuno Loureiro sublinhou a atitude de Tim Motion, «que disponibilizou um património particularmente interessante», um espólio que, em grande parte, «estava inédito».

«Enquanto a fotografia, em si, é uma atividade individual, do fotógrafo, um livro é uma atividade de grupo. É toda uma história que este livro conta». E agora, cada um dos leitores ou dos visitantes da exposição pode «construir a sua própria narrativa». Esse é, salientou Nuno Loureiro, o grande objetivo: «que cada um olhe para o livro e construa a sua narrativa».

O diretor dos Enfola aproveitou ainda para defender que, em quatro anos de Encontros, «trouxemos para o Algarve quatro eventos com grande dignidade no panorama da fotografia portuguesa e de autor». O livro, acrescentou, será uma «alavanca muito importante para trazer a fotografia para o Sul», agora que acabaram os encontros de fotografia de Coimbra e de Braga. «Hoje já não passa despercebido ao país o que se está a fazer no Algarve» em termos de fotografia, concluiu.

Francisco Martins, presidente da Câmara de Lagoa, e apoiante, desde a primeira hora, destes Encontros de Fotografia, salientou a importância da iniciativa e garantiu que o que quer é «que se faça sempre mais e melhor».

A exposição, de acesso gratuito, ficará patente ao público até 16 de Setembro no CIA do Parque Municipal do Sítio das Fontes (Estômbar) e poderá ser visitada de terça-feira a sábado, das 11h00 às 13h00 e das 14h00 às 18h00.

«Algarve 63» é um álbum de luxo onde não foram poupados cuidados gráficos e na impressão. Além das fotografias, todas a preto e branco, há textos de Francisco Martins, presidente da Câmara Municipal de Lagoa, Nuno de Santos Loureiro, coordenador e curador da obra, Miguel Reimão Costa, arquiteto e professor na Universidade do Algarve, e do próprio Tim Motion. Tomé Moreira e Isabel Matos Ferreira foram os designers gráficos.

O livro poderá ser comprado nas principais livrarias (FNAC e Bertrand), bem como nos serviços da Câmara de Lagoa.

Os Enfola 2017 – Encontros de Fotografia de Lagoa são uma iniciativa conjunta da Câmara Municipal de Lagoa e da Universidade do Algarve.

 

Fotos: Elisabete Rodrigues|Sul Informação

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