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«Ideia» da Câmara e do CCMar para o Porto de Faro gera muitas questões, mas há poucas respostas

Não é um projeto, é «uma ideia», apesar de ter já passado para o papel e das suas imagens serem já conhecidas. O grupo informal Faro à Conversa promoveu esta quarta-feira um debate sobre a visão conjunta que o Centro de Ciências do Mar (CCMar) do Algarve e a Câmara de Faro têm para o Porto Comercial, que passa por o transformar num espaço que alia o conhecimento ao turismo, com uma Marina, mas a conversa acabou por se centrar mais num conjunto de considerações de caráter geral,tendo em conta que não há, para já, um plano definido a alterar.

Na mesa, estiveram Rogério Bacalhau e Adelino Canário, representantes das entidades que avançaram com a ideia, mas também Óscar Ferreira, especialista em hidrodinâmica costeira da Universidade do Algarve, e João Santos, em representação da associação Almargem.

Do “outro lado”, na plateia do auditório da Biblioteca Municipal de Faro, estiveram cerca de duas dezenas de pessoas, boa parte das quais, percebeu-se, traziam já engatilhadas diversas perguntas.

Mas as primeiras dúvidas foram colocadas por  um dos membros da mesa. João Santos, da Almargem, deixou bem claro desde o início da sua intervenção que tinha muitas reservas em relação à proposta que havia sido apresentada momentos antes, não tanto pelo impacto ambiental que terá, já que a zona se encontra «profundamente degradada e artificializada», mas pela forma desgarrada como considera que este projeto (que não o é), surgiu.

«Para mim, não faz sentido falar disto tudo [proposta para o Porto Comercial de Faro] ignorando tudo o que está à volta», considerou João Santos. Isto porque ali ao lado está o Bom João e há toda uma zona ribeirinha desde o Porto até à estação da CP à espera de uma solução.

E nem é que faltem ideias e projetos. Só para Portos de Recreio, lembrou o representante da Almargem, já foram avançadas várias propostas de localização. A mais palpável, uma vez que neste caso se trata mesmo de um projeto, que até já tem o Relatório de Conformidade Ambiental (Recape) aprovado, é o porto exterior à atual Doca de Faro, a construir em espaço ganho à Ria Formosa no outro lado da linha férrea. Mas também se falou numa marina junto ao Cais Neves Pires e em duas outras localizações junto à Zona Industrial do Bom João, bem perto do Cais Comercial.

«Afinal em que ficamos. Queremos na Doca? No Cais Neves Pires? No Bom João? No Cais Comercial? Tudo?», questionou. «Temos de dar prioridade à natureza. Se um Porto de Recreio já teria impacto, mais do que um seria muito mau», defendeu.

E se o membro da Almargem não «tem nada contra a componente científica», o mesmo não acontece em relação à componente urbano-turística, com a qual diz discordar. «Colocar ali hotéis quando a escassas centenas de metros está a Zona Industrial do Bom João, onde estes podem ser instalados, não faz sentido», considerou.

João Santos trouxe, de resto, o trabalho de casa feito e deixou um conjunto de recomendações: «criação de jardins, espaços verdes e de lazer na zona ribeirinha; recuperação das salinas Neves Pires; recuperação do património natural; criação de roteiros de natureza; e criação de fundeadouros para os proprietários de pequenas embarcações».

Já exigências, passam pela «apresentação de um projeto global, em vez de projetos isolados», bem como pela «construção de um único equipamento de náutica de recreio».

Na sequência destes reptos, o edil Rogério Bacalhau fez questão de frisar, mais uma vez, que o que está em cima da mesa «são um conjunto de ideias, não um projeto». E até disse «ter dúvidas» de que o Porto de Recreio exterior à atual doca, um projeto da Docapesca, alguma vez vá para a frente.

«Se um dia se decidir avançar para esta ou outra proposta para o Porto Comercial de Faro, será necessário fazer Estudos de Impacto Ambiental, mas também económicos, onde cabe a componente social. Esta é uma ideia para ser melhorada e complementada», assegurou.

Foi precisamente isso que os membros da assistência procuraram fazer, com sugestões e alertas relativos às questões ambientais, sociais, mas também de estética, já que é preciso ter em conta o impacto visual de um empreendimento que ocupará 17 hectares na Frente de Ria de Faro.

Sugestões que foram, na generalidade, saudadas pelos autores da ideia, mas que, como a própria visão que se estava discutir, esbarram na realidade: qualquer decisão quanto ao futuro do Porto Comercial de Faro cabe à Administração dos Portos de Sines e do Algarve e, em última análise, ao ministério do Mar.

E se é um facto que a ministra do Mar, numa iniciativa que envolveu a AMAL – Comunidade Intermunicipal do Algarve, criou uma comissão para recolher sugestões para o futuro destas infraestruturas – a proposta FarFormosa para o Porto de Faro foi uma delas – também é certo que ainda não há nenhuma decisão da parte da tutela, que até pode, no limite, decidir que fica tudo na mesma e que o Porto de Faro continuará a ser um Porto Comercial.

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