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As “passinhas do Algarve” na seca de 1875, ou o retrato social e económico da região – Castro Marim e que lições foram tiradas?

Castro Marim foi o último concelho visitado pelo governador civil José de Beires, regressando a Faro a 10 de junho. Como temos vindo a recordar, aquele magistrado percorreu todo o Algarve, no cumprimento de uma determinação governamental, que visava observar e avaliar in loco as consequências advindas de uma longa seca na região, iniciada em 1874 e que se prolongara por 1875.

Localizado entre Vila Real e Alcoutim, Castro Marim, não obstante algumas perdas, não era dos concelhos mais afetados pela estiagem. Guiados pela pena de José de Beires, observemos os principais danos em cada freguesia.

Sobre Odeleite escreveu:
“A sua cultura principal é de cereaes. Na maior parte a producção será de uma semente, no resto de 7 ou 8. A media em toda a freguezia será de 3 sementes. Não excede a 5 a de um anno regular. O pouco olivedo que tem está soffrivel. Fora da povoação ha escacez de agua potável.”

Quanto ao Azinhal:
“Tem pouco arvoredo, alem de um importante pomar de larangeiras, que nada tem soffrido com a estiagem. Tem também poucas vinhas, e essas estragadas. A sua principal cultura é de searas, e estas darão uma producção media de 2 sementes, que em anno regular é de 5 ou 6. Este resultado é devido principalmente a terem sido invadidas por agua salgada as principaes terras que são as várzeas da moita. Só poderiam produzir, se tivessem caído copiosas chuvas, que as adoçassem.”
Singular a existência de um pomar de laranjeiras, nesta freguesia.

Por fim a freguesia da vila, Castro Marim:
“É esta freguezia a que se acha em melhores condições, quanto a searas e vinhas, sua principal cultura. As searas em anno regular produzem a média de 8 sementes; n’este anno 4 a 5. As alfarrobeiras também promettem boa novidade. As oliveiras, figueiras e sementeiras serôdias é que se apresentam em mau estado.”

 

Em termos gerais, o governador civil classificava o estado do distrito como «mau». Afinal na sua viagem vira “já muitas figueiras completamente seccas, e amendoeiras com o fructo perdido; e as próprias alfarrobeiras, de natureza selvagem e agreste, com a folha estiolada e cadente, e com o fructo enfezado e pouco vivedouro por falta de humidade”.

Os concelhos de Portimão, Albufeira, Lagoa e Faro eram os mais afetados, embora na maioria das freguesias do litoral e barrocal se registassem grandes prejuízos e escassez de água.

Ainda assim, em todos os municípios a produção registava quebras, apesar de em algumas freguesias, como São Marcos da Serra, Ameixial, Cachopo ou Giões, as colheitas serem normais ou mesmo superiores.

Lembrava José de Beires que, se a chuva caísse, os prejuízos seriam minimizados, mas isso era impossível de prever, e, caso a seca persistisse, seria inevitável a perda de grande parte das figueiras e então a crise seria “extensa e aterradora”.

Note-se que o figo constituía então a base da economia regional, ou não fosse o principal produto exportado. Também de primordial importância eram a amendoeira, a oliveira, os cereais (principalmente o trigo) e as vinhas.

 

Quanto à população, o governador subdividiu os algarvios em marítimos, proprietários e proletários ou jornaleiros.

Os primeiros, que considerava mais miseráveis, nada sofriam, dado que “o producto da pesca tem sido abundantíssimo”, já os últimos pouco eram afetados pela diversidade de trabalhos públicos e privados que se encontravam a decorrer, bem como pelos preços baixos dos géneros alimentícios.

A mesma sorte, porém, não tinham os pequenos proprietários, porque, além de não terem sementes para lançar à terra, estavam a comercializar o gado ao desbarato, por falta de forragens para os alimentar. Alguns já haviam mesmo migrado para Lisboa em busca de trabalho.

Acompanhava o extenso relatório, concluído a 17 de junho, um vasto conjunto de alvitres que colhera por toda a região, acompanhados do seu parecer. Entre eles destaque para abertura dos trabalhos do caminho de ferro, a construção da estrada de Lagos ao Cabo de São Vicente, ou a via de Alcoutim a Martim Longo e daí a Tavira, bem como o empréstimo de cereais aos agricultores.

 

José de Beires concluía, assim, a sua difícil, quanto penosa missão. A longa exposição, minuciosa e rica em pormenores, não só sobre a seca, mas de toda a economia regional e até da sociedade, tem também a particularidade de estar circunscrita temporalmente a 18 dias, constituindo uma notável radiografia do Algarve e dos seus concelhos naquela época.

As medidas do governo não se fizeram esperar. No dia 1 de julho, um decreto determinava a abertura das obras da linha férrea entre Faro e São Bartolomeu de Messines, disponibilizando para o efeito uma verba de 200 contos de reis, principiando os trabalhos 19 dias depois.

No que concerne à rodovia, entre outras, foi dado máximo desenvolvimento às obras na estrada de Faro a Boliqueime e São Bartolomeu de Messines, da Torrinha a Monchique e de São Bartolomeu de Messines a Santo Estêvão, sendo ainda concedido um subsídio para a via de Lagos a Bensafrim.

Também as autarquias receberam uma subvenção para a construção de diversas estradas municipais.

Ao governador foram ainda entregues quatro bombas para a pesquisa de água, nos locais onde esta escasseava.

 

A seca agudizou-se nos meses seguintes, embora em junho tenha chovido em algumas partes do distrito.

Na edição de 14/07/1875, o jornal “Gazeta do Algarve” referia “não há memoria de tamanho desastre”, noticiando a perda quase total do figo, bem como o definhar até à exaustão de poços e fontes, como a de Paderne, ocasionando alterações de ordem pública. Em setembro, o mesmo semanário classificava 1875 como um “anno de fome”.

No mês seguinte e até Janeiro de 1876, a região recebeu vários barcos oriundos de outros portos do país com cereais, principalmente trigo, cevada e fava e quantidades mais modestas de grão de bico, milho de sequeiro, centeio, aveia e feijão, que foram dispensados aos agricultores, para as sementeiras. Cereais que foram computados a dinheiro (contemplando os custos de aquisição, transporte, armazenagem e entrega) nos seis anos subsequentes.

A 22/10/1875, a Câmara de Silves deliberava consignar em ata um voto de louvor ao governo, pelos “utilíssimos melhoramentos e desenvolvimento de trabalhos nesta província, os quaes em virtude da desgraçada crize alimentícia que este Districto vae atravessando, são os únicos recursos para os meios de subsitencia dos operários e lavradores menos abastados”.

Quase no fim do Outono, a chuva chegou, para em dezembro chover abundantemente. Os algarvios haviam superado a seca com a ajuda do governo, é certo, mas a dura batalha fora vencida.

 

Para o “Gazeta do Algarve”, a crise fora uma grande lição para a região: “oxalá que tiremos d’ella o devido ensinamento”.

Lembrava que a maioria da população se ocupava da agricultura, simultaneamente com outras profissões, o que impedia, segundo aquele periódico, a concentração, por falta de tempo e a consequente modernização dessas atividades.

Considerava que “a coexistência no mesmo indivíduo da industria agrícola com qualquer das outras industrias é um verdadeiro inimigo da nossa prosperidade”, pelo que defendia a exclusividade na profissão, bem como a diversidade económica do Algarve, com a aposta no comércio e indústria e não apenas assente na agricultura e principalmente na cultura da figueira, como sucedia.

Então na agricultura, hoje no turismo, a monocultura sempre a imperar na região.

Todavia, não houve muito tempo para reflexões. Em outubro de 1876, começou a chover, primeiro normalmente e depois copiosamente, de tal forma que, em 7 de dezembro, uma cheia no rio Guadiana atingiu proporções de que não havia memória, submergindo vilas e aldeias ribeirinhas, destruindo casas e ceifando vidas.

Em janeiro seguinte, era o Arade que invadia a baixa de Silves provocando o colapso de vários edifícios, que ruíram como “pão de ló”.

Depois da seca, a cheia era inevitável e, com ela, a miséria acercava de novo os algarvios.

 

Mas a dramática década de 1870 guardava outra surpresa para a região: de novo a seca. Em janeiro de 1878, lamentava-se na Câmara de Silves a “extrema seca da actualidade”, para, em junho seguinte, apelar à intervenção do governo para a “abertura dos trabalhos do caminho de ferro, como único refugio a onde se poderão abrigar os infelizes filhos do Algarve, perseguidos da maior adversidade de que não há memória”.

Mas estes foram outros acontecimentos, outras contrariedades que não fazem parte do âmbito deste trabalho.

Regressemos, pois, ao relatório do governador civil José de Beires, que temos vindo a divulgar nas últimas semanas, cujo teor mereceu logo o reconhecimento do Ministério das Obras Públicas, ao referir que este demonstrava a “intelligencia e loulavel zelo com que aquelle magistrado desempenhou a importante commissão de que fôra incumbido”.

Na verdade, o relatório constituiu um documento basilar para preparar as medidas que permitiram mitigar os terríveis efeitos da seca (que acabaria por ter consequências antagónicas, pelo incremento extraordinário que todas as obras públicas conheceram naqueles anos, apesar de logo cessarem quando principiou a chover).

É um documento incontornável para os nossos dias, acrescentamos nós, para a história económica e social do Algarve da segunda metade do século XIX.

 

Parte I – As “passinhas do Algarve” na seca de 1875 ou o retrato social e económico da região
Parte II – As “passinhas do Algarve” na seca de 1875 ou o retrato social e económico da região – Lagos, Monchique e Portimão
Parte III –As “passinhas do Algarve” na seca de 1875, ou o retrato social e económico da região – Lagoa, Silves e Albufeira
Parte IV – As “passinhas do Algarve” na seca de 1875, ou o retrato social e económico da região – Loulé e Tavira
Parte V – As “passinhas do Algarve” na seca de 1875, ou o retrato social e económico da região – Olhão, Faro, Vila Real de Santo António e Alcoutim

 

 

Nota 1: As imagens utilizadas são meramente ilustrativas. Correspondem a postais ilustrados, da primeira metade do século XX.
Nota 2: Nas citações do jornal «Gazeta do Algarve», optou-se por manter a grafia e da época.

 

Autor: Aurélio Nuno Cabrita, engenheiro de ambiente e investigador de história local e regional, colaborador habitual do Sul Informação

 

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