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Aljezur quis saber mais sobre o surf e encontrou uma “mina de ouro”

Os surfistas descobriram as praias de Aljezur, invadiram pacificamente o concelho, mas pouco se sabia sobre estes turistas. De onde vêm? Onde ficam? Como contribuem para a Economia? O Estudo do Produto Turístico Surf no Município de Aljezur, que foi apresentado esta terça-feira, veio dar respostas a todas estas questões.

O documento, elaborado pela Universidade do Algarve e coordenado por Paulo Carrasco, foi pedido por José Amarelinho, presidente da Câmara de Aljezur, em 2014, quando o reitor da academia algarvia visitou o concelho. Três anos depois, os resultados foram divulgados.

Por ano, passam por Aljezur cerca de 80 mil surfistas, a maior parte da Alemanha (26,8%), de Portugal (18,9%) e de Espanha (11,3%). A idade média deste tipo de turista é de 32 anos e 75% tem formação superior.

Cada surfista gasta, em média, 75,68 euros por dia, o que se traduz num impacto anual na economia de Aljezur de cerca de 6 milhões de euros.

Os números são interessantes e, para Ana Mendes Godinho, secretária de Estado do Turismo, que esteve na apresentação do estudo, no Espaço+, em Aljezur, mostram «a importância económica que o surf tem para Aljezur e para Portugal. Se pensarmos que, em termos económicos, gera cerca de 6 milhões de euros aqui e que, a nível nacional, de acordo com as últimas informações que tínhamos, gera 400 milhões, fica demonstrada a importância do produto», disse ao Sul Informação.

Paulo Águas, pró-reitor da Universidade do Algarve, Ana Mendes Godinho, José Amarelinho e Francisco Serra

O dinamismo que os surfistas trouxeram para a economia aljezurense traduziu-se em retorno para várias empresas. «O surf movimenta e arrasta outras atividades económicas como escolas de surf, marítimo-turísticas, hotéis, alojamento local e ajuda também a fixar populações no território», acrescenta Ana Mendes Godinho.

Só no caso do Alojamento Local registado, este teve um crescimento de 43% ao longo do último ano em Aljezur.

José Amarelinho diz que, com o estudo, «ficou provado aquilo de que desconfiávamos: que o surf é decisivo na economia local. Sabíamos que havia um crescimento exponencial do Alojamento Local, que tinha de ser explicado de alguma forma. O surf não é responsável por ocupar todo o Alojamento Local, mas, maioritariamente, os clientes vêm daí».

A estadia média dos surfistas em Aljezur ronda os sete dias, sendo que 30% ficam alojados em surfcamps, 20% em apartamentos ou aldeamentos turísticos, 10,4% em caravanas, 10% em hostels e 8% em casa de familiares ou amigos.

Apesar de apenas 4,2% destes turistas optarem por ficar num hotel com 3 estrelas ou mais, o estudo demonstra que os surfistas têm poder de compra. Além do indicador dos gastos diários acima dos 75 euros, 60% dos inquiridos tem um rendimento mensal acima dos 1500 euros e 28% ganha mais de 2500 euros por mês.

Espaço+ encheu para divulgação dos primeiros resultados do estudo

José Amarelinho diz que «tínhamos a sensação de que as pessoas que chegavam até nós tinham cursos superiores e que era gente endinheirada, mas não tínhamos a certeza. Não se pode julgar o surfista por andar descalço, ou despenteado, porque não é o julgamento mais certo».

A qualidade das praias, o bom clima, o ambiente, e a quantidade e variedade de ondas são os fatores mais vezes invocados pelos surfistas para a escolha de Aljezur como destino turístico que, não raras vezes, se torna definitivo.

«Temos um número considerável de novos aljezurenses. Muitos portugueses que deixam as vidas nas cidades, vêm até Aljezur e aqui ficam e investem. Há casos de pessoas que, já com alguma idade, começam uma nova vida aqui, em busca de uma vida mais calma», conta José Amarelinho.

O surf é bom, traz dinheiro a Aljezur, mas o turismo de sol e praia também é importante para o concelho, sendo que ambos partilham o mesmo espaço: as praias. Por vezes, a convivência entre estes dois tipos de utilizadores não é fácil.

De acordo com o estudo, 75,1% dos surfistas e 81% dos banhistas sentem-se seguros nas praias aljezurenses. No entanto, no que à perceção do cumprimento de regras diz respeito, o valor baixa para 65,6% por parte dos surfistas e 75,8% no caso dos banhistas.

Por isso, diz o documento, existe «a necessidade de um plano estratégico que incida numa maior informação/comunicação/fiscalização para o cumprimento das regras de utilização das praias e da atividade do surf».

Surfistas e banhistas partilham a Praia da Arrifana

Ana Mendes Godinho considera que o estudo agora divulgado é importante para «avaliar o que é preciso fazer, criar debate com agentes do setor e com a comunidade. Serve também para identificar o que é preciso fazer para crescer mais».

«A nossa preocupação passa por gerir estes vários interesses, para que a atividade seja mais sustentável ao longo do ano», acrescentou a secretária de Estado.

Já José Amarelinho encontra algo que tem que ser mudado para que a convivência entre banhistas e surfistas seja sã: «não vamos tapar o sol com a peneira, não está tudo bem! Os planos de praia têm de ser refeitos. Até hoje, enquanto Câmara, damos indicação zero para os planos de praia. Não temos nada a dizer sobre onde ficam os corredores de surf, quantos devem ser ou onde devem ficar os banhistas».

Por isso, Amarelinho espera que «com esta “febre descentralizadora” do Governo, se chegue a bom porto [transferência de competência para as autarquias]. Estas duas atividades são compatíveis e estão bem integradas nos planos de praia, mas aqui e ali há dificuldades. Esse trabalho deve ser feito por quem sabe: pelas escolas de surf, pelos banhistas, pelos nadadores salvadores, pelas Câmaras».

O estudo «inovador e pioneiro», como foi classificado por Ana Mendes Godinho, conheceu a luz do dia, mas o trabalho não ficou concluído.

«Este estudo serve para reflexão e análise. Vamos lê-lo ainda com mais atenção e vamos tomar devidas anotações. Temos que encarar isto como algo dinâmico, com várias variáveis, e vamos incluir questões que, na perspetiva de alguns players, não tenham sido respondidas. Este estudo ainda pode ser muito enriquecido», conclui José Amarelinho.

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