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Guerra aberta por causa do registo da marca «Lagoa Capital dos Vinhos do Algarve»

A marca «Lagoa Capital dos Vinhos do Algarve», registada há cerca de três meses pelo município lagoense, já levou ao corte de relações por parte da Comissão Vitivinícola do Algarve e está a causar problemas sérios na relação com os municípios e com os produtores dos concelhos vizinhos.

A nova marca foi apresentada pela Câmara de Lagoa na gala de encerramento do evento “Cidade do Vinho 2016”, mas a Comissão Vitivinícola do Algarve (CVA) já anunciou, em comunicado, que vai reclamar dessa «proclamação unilateral do título», que, na opinião deste organismo, colide com a marca «Vinhos do Algarve», registada em 2010 no no INPI – Instituto Nacional da Propriedade Industrial.

Carlos Gracias, presidente da CVA, disse ainda, em declarações ao Sul Informação, que a «proclamação» lagoense «é um completo desrespeito da Câmara de Lagoa em relação a todos os outros concelhos algarvios produtores de vinho e, sobretudo, em relação aos outros produtores, ao pretender transmitir para o exterior a falsa imagem de que há um domínio do concelho de Lagoa sobre a produção vínica da região do Algarve».

E de facto não há, nem em termos de área ocupada por vinha em produção, nem em termos de número de produtores, nem sequer em termos de qualidade atestada, por exemplo, por prémios aos vinhos, uma vez que os galardões, em concursos nacionais e internacionais, têm sido repartidos por produtores de toda a região algarvia.

Em Silves, por exemplo, onde existe quase o dobro dos produtores de vinho de Lagoa, a presidente da Câmara Rosa Palma diz-se «muito surpreendida» com este registo da marca. «Já tem sido muitas vezes falado, até entre os presidentes de Câmara, mas também entre os produtores, que não se devia individualizar os concelhos, mas antes valorizar todo o território do Algarve como produtor de vinho. Havia uma concordância de que se devia ganhar nome através da marca dos Vinhos do Algarve e não de um concelho em detrimento do outro», explicou a autarca, contactada pelo nosso jornal.

A edil silvense considera, por isso, que a atitude de Lagoa, ao registar unilateralmente a marca de «capital dos vinhos do Algarve» é «estranha» e até «abusiva». Para mais, porque, garante Rosa Palma, ao contrário do que diz ter sido o processo do registo da marca «Silves Capital da Laranja», «que foi discutido com todas as entidades envolvidas», neste caso «Lagoa avançou sozinha e sem discutir nada com ninguém». «Não estava à espera desta atitude de Lagoa», confessa a presidente da Câmara de Silves.

Isilda Gomes, presidente da Câmara de Portimão, o outro concelho vizinho, prefere ironizar: «por essa ordem de ideias, haveria justificação para registar muitas outras capitais do vinho do Algarve, a começar por Portimão». Mas, sublinha, além de Portimão e de Lagoa, há «outros concelhos algarvios com excelentes vinhos, como Tavira, ou Albufeira ou Lagos».

Por isso, a autarca portimonense acha «um perfeito disparate» o registo da marca por parte de Lagoa.

Mas não são só os municípios vizinhos que contestam esta declaração unilateral de Lagoa como «capital dos Vinhos do Algarve». Rui Virgínia, proprietário dos premiadíssimos vinhos da Quinta do Barranco Longo, no concelho de Silves, considera que o registo da marca por parte do município lagoense é «um bairrismo do passado, simples procura do protagonismo barato».

«O que temos de pensar e de defender é o Algarve como região de vinhos. Estas pequenas quintas, estas mentalidades retrógradas não ajudam nada a região», acrescenta Rui Virgínia.

Segundo o produtor da zona de Algoz, «para que os nossos vinhos tenham aceitação no mercado, temos é de falar de Vinhos do Algarve. Não vamos inventar capitais, isso é uma perfeita tolice».

«Há uma entidade no Algarve, que é a Comissão Vitivinícola, que representa todos os produtores da região e que até é paga por nós. A CVA já registou a marca Vinhos do Algarve. Não é agora a Câmara A ou B ou C que vai armar-se em capital, em dona do vinho. Se alguém trabalhou, nestes anos todos, para reerguer os vinhos do Algarve, para reafirmar a sua qualidade, foram os produtores, todos os produtores de todo o Algarve. E esses já têm quem os represente, que é a CVA», disse ainda o produtor da Quinta do Barranco Longo.

Por seu lado, o vereador lagoense Luís Encarnação, pai da ideia do registo da marca «Lagoa Capital dos Vinhos do Algarve», considera que se trata de uma «polémica estéril».

É que, defende o autarca, a marca é «uma estratégia de marketing territorial, que tem a ver com a longa tradição de Lagoa ligada ao vinho e com o trabalho deste executivo municipal desde há três anos».

Luís Encarnação faz questão de sublinhar que o registo da marca «não foi feito contra ninguém, mas antes a favor dos produtores do vinho de Lagoa e do Algarve, com os quais temos trabalhado em parceria», num esforço que «é para continuar».

Para o vereador de Lagoa, a polémica gerada à volta da questão não passa de «minudências». «Isto será resolvido pelo Tribunal Arbitral do INPI», admite. «Se for entendido que não podemos usar o nome “Vinhos do Algarve”, não usamos, paciência, usaremos outro nome».

Para lá do que o Tribunal Arbitral do INPI venha a decidir, a verdade é que a questão já levou ao corte de relações entre a CVA, que até tem sede em Lagoa, e a Câmara Municipal desta cidade.

Carlos Garcias afirma que, «por via do diálogo institucional e até pessoalmente, tentámos demover o executivo da Câmara Municipal de Lagoa do uso abusivo da nossa marca “Vinhos do Algarve”, mas a resposta não satisfez as nossas pretensões, que são legítimas e baseados nos preceitos legais».

Por isso, após deliberação do seu Conselho Geral, a CVA apresentou uma reclamação junto do INPI, para pedir a reprovação do registo do logotipo. Foi também decidido «cancelar todas as parcerias e eventos programados com o Município de Lagoa», nomeadamente o Concurso de Vinhos do Algarve, que ontem se realizou pela primeira vez fora do concelho de Lagoa, num hotel no litoral de Albufeira.

Mas o vereador Luís Encarnação não se mostra muito preocupado, porque considera que a Câmara de Lagoa fez tudo dentro da legalidade. «Quando apresentámos a marca na gala de encerramento da Cidade do Vinho 2016 [em meados de Fevereiro], já ela estava registada há cerca de dois meses», revelou ao Sul Informação.

O produtor Rui Virgínia contrapõe: «atitudes destas não beneficiam nenhum produtor do Algarve. O que precisamos é de defender e de promover os Vinhos do Algarve como um todo, não é destes bairrismos do passado».

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