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Zooarqueologia ajuda a ter «nova forma de encarar a nossa responsabilidade nas alterações ambientais» desde a Pré-História

Os dados científicos fornecidos pela Zooarqueologia implicam «uma nova forma de encararmos a nossa responsabilidade nas alterações ambientais, terrestres ou marinhas, algumas delas com origem na Pré-História», revela Maria João Valente, arqueóloga e professora da Universidade do Algarve, em entrevista ao Sul Informação.

Esta questão e muitas outras, em especial os avanços que, em toda a Europa, mas também nas Américas, se vai fazendo neste campo da Ciência, estarão em destaque no Encontro de Zooarqueologia Ibérica 2017 (EZI2017) e na 5ª Reunião Científica de Arqueomalacologia da Península Ibérica (5RCAPI), que decorrem entre os dias 26 e 29 de Abril , no auditório da Faculdade de Economia (edifício 9), Campus de Gambelas da Universidade do Algarve. A primeira fase das inscrições, mais baratas, termina já amanhã, dia 15 de Março.

O Sul Informação entrevistou Maria João Valente, também responsável pela Comissão Organizadora, para saber qual a importância destas iniciativas e que novidades serão apresentadas ao longo dos quatro dias de trabalhos.

Sul Informação – Estes eventos estão a suscitar muito interesse na comunidade científica. Quantas comunicações serão apresentadas?
Maria João Valente – O número de submissões superou muito as nossas expectativas. Inicialmente tínhamos pensado que cada comunicação oral poderia durar 20 minutos, mas face à quantidade de submissões (estando apenas programados quatro dias de encontros) tivemos que optar por apresentações de 15 minutos e um maior número de pósteres.
Para os dois eventos associados temos planeadas 75 comunicações orais e mais de 40 pósteres.

SI – De onde são provenientes os participantes já inscritos nos encontros?
MJV – Uma vez que os encontros se centram em trabalhos desenvolvidos nos dois países ibéricos, a grande maioria será feita por investigadores espanhóis e portugueses. De Portugal, as instituições com maior representação são aquelas que mais tradição têm no tema: a Universidade do Algarve, a Universidade de Lisboa e a Direção-Geral do Património Cultural.
Para lá disso, temos também alguns colegas das Universidade de Coimbra, do Porto, da Nova de Lisboa, da Aberta e de Évora.
De Espanha, temos uma representação mais eclética, que reflete também a muito maior abrangência da sua investigação zooarqueológica: entre outras, estão presentes a Universidade Autónoma de Madrid, o Consejo Superior de Investigaciones Científicas, a Universitat de Barcelona, a Universitat Autònoma de Barcelona, a Universidad de Cantabria, a Universitat de València, a Universitat Rovira i Virgili (Catalunha), a Universidad de Granada, a Universidad de Salamanca, a Universidad del País Vasco e a Sociedad de Ciencias Aranzadi, a Universidad de Cádiz, a Universidad de Zaragoza, a Universidad de Valladolid, a Universidad de Léon e a Universidad de La Laguna nas Canárias.
Adicionalmente, estarão presentes também alguns investigadores oriundos do Reino Unido (University of Shelffield, University of York, University College London), França (Museum National d’Histoire Naturelle, Centre National de la Recherche Scientifique), Brasil (Universidade do Estado da Bahia, Universidade Federal de Sergipe), Estados Unidos (University of Louisville, University of New Mexico), Alemanha (Neanderthal Museum, Universität zu Köln/Colónia), Grécia e Equador.
Trata-se de colegas que têm trabalhos no território peninsular ou que vêm apresentar estudos relacionados com temáticas ibéricas.

SI – Porque é que a Universidade do Algarve organiza este Encontro Ibérico? Quais os objetivos?
MJV – A Universidade do Algarve têm já bastante experiência no ensino e na investigação zooarqueológica, sendo inclusive a única instituição de ensino em Portugal onde a zooarqueologia é constante nos currículos dos cursos de arqueologia desde o 1º ciclo (licenciatura).
Ao longo dos últimos anos, tem tido também vários projetos de investigação com uma forte componente de estudos zooarqueológicos, o que é, aliás, essencial para a formação avançada de alguns dos seus estudantes (2º e 3º ciclos, isto é, mestrado e doutoramento).
A crescente importância deste tipo de estudos é também salientada pela organização conjunta destes eventos por três Unidades de Investigação e Desenvolvimento na área da arqueologia: o CEAACP, o ICArEHB e a Uniarq.

SI – A par do Encontro Ibérico, há outras iniciativas a decorrer. Como é que se articula tudo isto?
MJV – Estes dois encontros ibéricos tem histórias diferentes: a Reunião Científica de Arqueomalacologia Ibérica (5RCAPI) terá a 5ª edição, a primeira a ser realizada em Portugal, apesar da importância centenária dos estudos de moluscos em contextos arqueológicos portugueses (os nossos concheiros do Mesolítico são excecionais e têm sido estudados desde o século XIX).
Tratou-se de um desafio que os colegas espanhóis nos colocaram durante a 4ª edição (realizada em 2014, em Santander) e que nós aceitámos, também para dinamizar este tipo de estudos, mais específico, junto dos investigadores e estudantes portugueses.
O Encontro de Zooarqueologia Ibérica (EZI2017) é o primeiro do seu âmbito e surge para colmatar a falta de eventos dedicados especificamente a temáticas peninsulares.
Existem vários encontros internacionais centrados na investigação zooarqueológica, alguns deles de escala mundial, como os encontros do International Council for Archaeozoology (ICAZ). Um destes encontros, com foco na temática dos peixes em contextos arqueológicos, realizou-se recentemente em Lisboa.
Paralelamente, organizam-se também vários eventos à escala nacional ou regional. Os britânicos fazem-nos de forma regular, deles resultando parcerias interessantíssimas e uma produção científica ímpar.
Para suprir de alguma forma a ausência destes eventos no nosso território e tendo em conta o razoável desenvolvimento da especialidade na última década e meia, em 2012, realizou-se o primeiro encontro dedicado à zooarqueologia em Portugal (ZAP, em Lisboa), que teve resultados muito interessantes, mas sem o impacto nacional ou internacional desejado.
Num primeiro momento, a nossa equipa pensou em organizar um segundo encontro deste tipo, mas, sabendo que a dinamização da zooarqueologia em Portugal (tanto na prática da investigação, como na formação de especialistas) teria muito a ganhar com a presença de um leque mais alargado de investigadores e com essa partilha de experiências, optámos pela organização mais ambiciosa e, julgando pela excelente adesão, mais apelativa, de um encontro ibérico.
O nosso desejo é que o EZI2017 seja o início de um novo ciclo de encontros científicos transfronteiriços, até porque, durante a maioria do nosso passado histórico, tais fronteiras não existiram, pelo que as problemáticas e temas a debater estão muito mais adequados à escala peninsular.
Em suma, estes encontros, um de objeto mais amplo, outro focado essencialmente em materiais arqueomalacológicos, têm como principal objetivo a maior divulgação da zooarqueologia em contexto peninsular e a criação de novas parcerias entre os zooarqueólogos (e seus colaboradores interdisciplinares: biólogos, geólogos, químicos, historiadores, etc) que trabalham materiais de ambos os países ibéricos. De certo modo, reforçando a convicção de que a ciência não deve ter fronteiras.

SI – Para que serve a Zooarqueologia? Que dados podem ser obtidos com a investigação dos restos dos animais em escavações arqueológicas?
MJV – Simplificando o tema, podemos definir a zooarqueologia como a disciplina que estuda os animais em contexto arqueológico.
A relação entre os Humanos e os Animais existe desde o alvorecer do nosso género e é extremamente diversificada: em alguns casos, os animais funcionaram como recurso alimentar (carne, leite), noutros como matéria-prima (pele, osso, concha), noutros ainda estabeleceram-se algumas relações de maior afetividade (por exemplo, o cão ou o gato como animais de estimação) ou até de sacralidade ou de repúdio.
Esta convivência com os animais molda muito da história humana, seja numa perspetiva social ou cultural.
Pode ser observada na literatura ou nas leis e regras sociais, mas é particularmente visível nos restos materiais da nossa existência: desde as lixeiras medievais aos enterramentos (humanos e animais) de época pré-histórica, passando pela arte que retrata os animais feita pelos nossos antepassados mais longínquos ou mais próximos.
Que animais eram mais apreciados como alimento em determinado momento? Como se processou a domesticação dos animais e para quê? (Para nos fazerem companhia? Para nos transportarem ou ajudarem na caça? Para fornecerem mais carne? Para nos darem lã ou leite?)
Porque é que há tantos gatos em determinados contextos e, no inverso, o cão é mais raro? Como se explica que, apesar do tabu religioso-cultural, apareça algum porco nas lixeiras medievais islâmicas? É a alimentação das comunidades cristã assim tão diferente das muçulmanas?
Porque é que há animais cujo tamanho diminui em certos períodos, para depois aumentar noutros? O que é que isso nos pode indicar sobre o comportamento humano e sobre as mudanças ou impactos paleoambientais?
Porque é que determinadas conchas ou dentes de animais foram mais utilizadas como elementos de adorno?
É um sem fim de questões, cuja resposta abre a porta a outras perguntas. Perguntas que estão intrinsecamente relacionadas com o que é ser humano: os nossos fenómenos de adaptação, de inovação, de aculturação, de identidade.
Numa só frase: como é que nós, atuais representantes do género humano, podemos conhecer as nossas semelhanças e diferenças, no passado e no presente, a partir dessa relação tão especial que fomos mantendo com os mais diversos animais.

SI – Os dados recolhidos pela Zooarqueologia têm “aplicações” em outras áreas ou atividades?
MJV – Para lá da mais óbvia contribuição para o conhecimento da história humana—onde se incluem as tais questões ligadas à complexidade social, aos rituais, às ideologias e às identidades, ao género ou às desigualdades -, uma das consequências da zooarqueologia moderna passa pela constatação da duplicidade da nossa relação com o ambiente.
Nós, humanos, já não nos podemos ver apenas como uma espécie que se modifica e adapta ao ambiente onde está inserida, mas temos também que reconhecer o nosso papel como agentes ecológicos e participantes altamente modificadores desse mesmo ambiente.
Ambiente que inclui os animais, sobre os quais agimos, levando à modificação e à extinção de espécies ou à alocação territorial de populações, por vezes com consequências devastadoras.
Tal visão implica, também, uma nova forma de encararmos a nossa responsabilidade nas alterações ambientais, terrestres ou marinhas, algumas delas com origem na Pré-História.
Se focarmos a nossa atenção em situações mais práticas, podemos também notar como a utilização dos dados obtidos pela zooarqueologia, nomeadamente os relacionados com as dinâmicas ecológicas e demográficas, estão já ao serviço do rastreamento histórico de doenças ou da conservação biológica.
Para exemplificar os primeiros casos, temos alguns estudo de insetos em contexto arqueológicos de zonas tropicais que nos permitem aferir os ritmos do aparecimento de algumas epidemias.
No caso europeu, têm assumido maior preponderância as análises sobre pequenos mamíferos, como o rato negro ou a ratazana, e a sua relação com surtos de peste e outras doenças.
No que se refere à conservação biológica, os mais afamados estudos têm origem na América do Norte e focam, por exemplo, as ações humanas e/ou ambientais que modificaram as populações de animais marinhos do Pacífico.
Na Península Ibérica, temos trabalhos algo semelhantes para o lince-ibérico ou para algumas espécies de peixes outrora abundantes na nossa costa ou rios e que, entretanto, desapareceram (o esturjão, por exemplo).
A observação destas dinâmicas pode (e deve) ser utilizada no planeamento da reintrodução de espécies ou na distribuição futura de alguma populações animais.
Esta área de ação, por muitos apelidada de “zooarqueologia aplicada”, torna-se particularmente urgente quando os biólogos e gestores dos nossos recursos naturais têm que tomar decisões para a preservação de espécies animais cujo futuro pode estar em risco.
Em última instância, tais medidas terão outras repercussão sociais, em particular nas vertentes turísticas e culturais.
O Algarve, em particular, é ainda sensível a tais repercussões porque está muito dependentes de uma simpática “fama” tão obviamente associada ao ecótono terra-mar e aos maravilhosos recursos que daqui advêm.

SI – Que novidades serão reveladas durante este Encontro Ibérico?
MJV – A concretização das novidades terá que esperar pela realização dos encontros, todavia podemos já avançar alguns temas que terão particular desenvolvimento. Salientamos: a importância da caça e da captura de pequenos animais ao longo do Paleolítico, nomeadamente de coelhos e aves. Aqui se incluem também alguns dados muito interessantes sobre a alimentação dos Neandertais e das primeiras comunidades dos Homo sapiens e o aproveitamento que terão feito dos vários recursos que lhes estavam disponíveis.
O aparecimento dos primeiros animais domesticados e que utilização lhes seria dada pelas primeiras comunidades agro-pastoris na Península Ibérica (Neste caso, assume particular relevo a ovelha, espécie alóctone ao território peninsular).
A utilização de novas metodologias para o estudo das alimentações e das mobilidades humanas em vários momentos história ibérica. Os estudos isotópicos (como o oxigénio, azoto, carbono e estrôncio) têm resultado em dados inéditos que abrem novas perspetivas sobre estes temas.
A correlação entre as representações artísticas de animais e os materiais faunísticos, em especial durante a Pré-História. Até que ponto os animais mais retratados foram os mais consumidos? Será que os mais antigos fenómenos artísticos incidem sobre outro tipo de relação com os animais que não o de recurso alimentar?
A contribuição dos animais ibéricos para a fauna brasileira de época colonial.
A importância e o significado que os enterramentos de cães tiveram durante os períodos da Idade do Cobre e do Bronze e de que forma refletem a relação milenar entre os grupos humanos e o seu “melhor amigo.”
A gestão do gado caprino e bovino durante o Império Romano (e Antiguidade Tardia), assumindo particular interesse as evidências do melhoramento de raças durante este período.
A variação das faunas na transição Medieval Islâmico-Cristão (séculos XII-XIII) e como as dietas humanas podem servir de indicadores de ritmos e de mudanças culturais. (Numa perspetiva do “diz-me o que comes, dir-te-ei quem és”).
Os elementos de adorno sobre concha durante a Pré-História antiga: quais as técnicas de fabrico e qual o seu significado cultural?
A contribuição do estudo dos invertebrados marinhos para a observação de mudanças climáticas e ambientais ao longo dos últimos milhares de anos.
A importância dos moluscos na alimentação humana dos vários períodos históricos: um luxo ou uma necessidade?

SI – E como tem sido o acolhimento das entidades regionais a estas importantes iniciativas científicas?
MJV – Gostaríamos de salientar o excelente acolhimento que tivemos por parte das Câmaras Municipais de Faro e de Loulé, instituições patrocinadoras, que irão acolher os participantes na receção e no jantar oficial dos eventos.
Outras das instituições apoiantes são a Associação Arqueológica do Algarve e a Direção Regional da Cultura. Em paralelo, contamos também com a importante parceria do Campo Arqueológico de Mértola.

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