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Há 155 anos, a ribeira de Alcantarilha “engoliu” uma parte de Armação de Pêra

Localizada nas imediações da ribeira de Alcantarilha ou da Enxurrada, como também é designada, Armação de Pêra tem tido, ao longo da sua história, vários episódios de inundações.

Ainda recentemente a Câmara de Silves apresentou, a uma plateia repleta de armacenenses, um projeto que visa “acabar” (ou certamente minimizar, dado que o risco persistirá sempre) com aquele flagelo que amiúde atinge a zona baixa da vila.

Uma das cheias já perdida nas brumas do tempo ocorreu em 1862. O mês de Fevereiro fora muito chuvoso no Algarve, de tal forma que a produção agrícola estava, nos primeiros dias de Março, posta em causa, fosse pelo inevitável atraso das sementeiras, pela perda do que já estava semeado, ou ainda pelos prejuízos no arvoredo.

A pluviosidade mais intensa provocou, todavia, um outro problema, o aumento de caudal das linhas de água, de que a ribeira de Alcantarilha não foi exceção. Como se não bastasse, as cheias haviam arrastado as areias junto de Armação de Pêra, aproximando-se o leito da ribeira perigosamente da localidade.

Previdentes, os armacenenses haviam iniciado, em meados de Fevereiro, a construção de uma barreira, recorrendo a remos e outros madeiramentos, com a qual acreditavam proteger a aldeia da fúria das águas.

A sorte, porém, não esteve do seu lado, e na manhã do dia 2 de Março, fazem hoje precisamente 155 anos, a pequena defesa era arrastada para o oceano e, sem ela, as águas fluviais e marítimas atingiram a povoação.

Os pedidos de socorro não se fizeram esperar, não só na região como em Lisboa, mais concretamente na Câmara dos Deputados, onde o assunto chegou pela voz de Joaquim Mendes Neutel (mais tarde visconde de Messines).

Deputado por Silves, Neutel traçou ao ministro do Reino (hoje seria da Administração Interna), Anselmo Braamcamp, em 7 de Março, um cenário dantesco: “Armação de Pêra vae estando quase lançada por terra, desmoronada parte de suas casas, e collocando a gente da povoação num estado miserável, sem ter que comer e sem ter cousa nenhuma”.

Joaquim Mendes Neutel, deputado por Silves

Informava aquele parlamentar que a ribeira levara “grande numero de casas”, encontrando-se a povoação “reduzida á ultima miséria”.

Os homens não tinham alimentos e já haviam trabalhado na construção de uma vala de proteção “quinze dias sustentados só com alfarroba, e apenas com um copo de vinho [diário] que deram a cada um os cavalheiros, os srs. Pimentel, Paula e Ricardo”.

Os armacenenses, segundo aquele deputado, mendigavam agora pelas povoações circunvizinhas, para minimizarem a sua desgraça.

Por tudo isto, Neutel apelava à generosidade do ministro, aconselhando que fosse fornecido aos desventurados “um pouco de milho, que é do que a gente do mar mais gosta, e o que mais alimenta”, pedindo, no entanto, celeridade, “porque depois de mortos de nada lhe serve.”

Ao que reforçava: “eu tenho cartas em que me dizem, que olhar para os habitantes d’aquella povoação é olhar para homens já defuntos e para esqueletos de todo desfigurados.”

Solicitava ainda que o governante intercedesse junto do ministro das Obras Públicas, para que este enviasse “um engenheiro para poder dirigir aquelles homens e fazer com que se encanasse a ribeira, porque elles estão promptos a trabalhar, mas desejam ter quem os dirija.”

Braamcamp, no uso da palavra, prometeu que o governo faria tudo quanto fosse possível para “minorar as desgraças d’aquelle povo”, informando mais que, assim que tivera conhecimento da adversidade, telegrafara ao governador civil de Faro, para que este providenciasse e socorresse os armacenenses.

Assim fora, o telegrama chegou a Faro um dia depois dos acontecimentos, a 3 de Março, e Albino Abranches de Freire Figueiredo, o governador civil, partiu no dia seguinte para Armação de Pêra, “afim de prover do melhor modo possível á segurança d’aquelles habitantes e animal-os no meio das calamidades de que estão sendo victimas”.

Em simultâneo, pedira ao diretor das Obras Públicas que o acompanhasse, ou que fosse ter ao local um engenheiro “encarregado de impedir o progresso da invasão das aguas, com os trabalhos apropriados”.

É difícil imaginar a viagem entre Faro e Armação de Pêra, numa altura em que as estradas eram em número reduzido e o seu estado de conservação geralmente mau, sem esquecer todos os constrangimentos associados à estação invernosa, como o atravessamento das linhas de água, pela inexistência de pontes e a abundância de lama.

Ignoramos também o tempo despendido no percurso, sendo que, quando Albino Figueiredo chegou ao seu destino já lá encontrou, até pela proximidade, a Câmara de Silves e o administrador do concelho, que haviam feito o que lhes era possível para “remediarem o mal existente, e prevenirem o maior que se receava”.

Na verdade, a catástrofe que se pré-anunciava até não era desconhecida das autoridades silvenses. Na reunião de Câmara de 1 de Março, ou seja no dia anterior à inundação, João Nunes Almeida alertara o executivo para o “deplorável” estado em que se encontrava parte do povo de Armação, com “muitas casas a desabar”.

Referia João Almeida que as águas vinham a aproximar-se da povoação pelo continuado temporal, lembrando a necessidade de fazer vários trabalhos e consequentes despesas que os armacenenses não podiam suportar, pelo que, face à desgraça que os ameaçava, pedia à edilidade que “se dignasse concorrer com algum donativo para matar a fome a tanta gente pobre que ali tem trabalhado e continua a trabalhar”.

O executivo, “attendendo à triste exposição feita”, deliberou atribuir uma quantia de 20$000 réis, “para obviar a maiores desgraças”, a qual deveria ser distribuída junto desses trabalhadores.

Embora a 12 de Março, na Câmara dos Deputados, o ministro Braamcamp já estivesse na posse de uma resposta sumária do governador civil, quando voltou a ser interpelado sobre esta matéria, o ofício de Albino Figueiredo apenas partiu de Faro a 20 de Março.

Na missiva, o governador civil descreveu com pormenor o que encontrou em Armação: “vi as ruinas das casas que tinhão desabado, e havião sido edificadas em um monte de arêa movediça, junto ao mar: é certo porém que as primeiras noticias forão muito exageradas a respeito dos desastres da povoação (como sempre acontece), pois que as casas derribadas pelas cheias da ribeira e pelo mar se reduzem a armazéns, pertencentes a pessoas ricas, que facilmente as poderão mandar reedificar, ou construir em melhor sitio e com mais segurança, se assim lhes convier”.

Afinal a tragédia não fora tão grande como se propalara e atingira principalmente os mais abastados da terra.

Dizia o governador que a parte baixa da povoação não sofrera qualquer ruína, por se encontrar mais distante do mar, todavia, sendo uma área composta, “como é quasi toda, de pobres pescadores”, estes ficaram impedidos de ir ao mar e logo privados de meios de subsistência e por consequência na miséria.

Ainda assim, as comissões de socorro criadas auxiliaram os mais necessitados, sendo extensivas, a conselho de Albino Figueiredo, aos “velhos, mulheres e creanças”.

Mas não pense o leitor que a estes últimos foram distribuídos subsídios! Até foram, mas “mediante o trabalho [dos mesmos] na abertura da foz da ribeira que fosse compatível com as suas forças”.

Os contemplados pela “subvenção” procederam à desobstrução da antiga foz, restituindo à ribeira de Alcantarilha a sua primitiva direção, “deixando assim livres de novos estragos as casas que ameaçava com o curso que ultimamente havia tomado”.

Ao todo, o governador civil distribuiu 45$000 réis, quantia que considerou suficiente para socorrer “á maior necessidade dos pobres, até que o tempo melhore e os deixe voltar ao seu modo de vida costumado”.

As inundações de 1862 não foram, felizmente, tão dramáticas como se difundiu inicialmente e, se a ribeira acabaria por não ser canalizada até aos nossos dias ,a povoação e os hábitos das suas gentes alteraram-se sobremaneira.

Armação de Pêra já não é hoje uma povoação de pobres pescadores que se alimentam de alfarrobas e ávidos por farinha de milho. Também a foz da ribeira já não é aberta manualmente, muito menos por velhos, mulheres e crianças, não obstante as cheias continuarem a atemorizar ocasionalmente os armacenenses.

 

Autor: Aurélio Nuno Cabrita é engenheiro de ambiente e investigador de História Local e Regional

 

NOTA: as citações mantêm a grafia da época a que se reportam.

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