Ana Moura e a portugalidade nos Holandeses

Viver num país diferente daquele onde nascemos obriga a rever as relações que temos com a nossa cultura. Um olhar […]

Viver num país diferente daquele onde nascemos obriga a rever as relações que temos com a nossa cultura. Um olhar sobre o que aprendemos numa sociedade e sobre como nos identificamos com um determinado modo de ser e sentir Portugal.

Estar fora significa estar ausente de um eixo cultural e de uma rotina social, mas também abrir os olhos a novos desafios. Significa percorrer a nossa vida em revista e perceber que as culturas têm coisas boas e coisas más, mas sobretudo coisas diferentes.

São diversos os códigos que nos fazem olhar a nossa cultura. A música é um veículo que nos ajuda a calibrar as emoções que sentimos quando nos ouvimos a nós mesmos na voz de outra pessoa, quando quem nos canta é capaz de provocar aquele arrepio na pele, usando a nossa língua num país distante.

Vestindo a pele de emigrante, interessa-me perceber afinal o que é isso de “ser emigrante”? Que cultura é essa, a das comunidades emigrantes? Que espaço existe para se ser português num outro país?. Como veem os Holandeses um país como Portugal?. São questões que não vou aqui responder, mas talvez tenha interesse sublinhar algumas particularidades.

Existem características que nos distinguem, e gostemos ou não, elas acabam por ser bem visíveis no dia a dia dos portugueses, independentemente do país onde vivem. A síntese de todas elas pode ser encontrada no Grupo Desportivo e Recreativo “Os Lusitanos”, em Amesterdão, um espaço popular pejado de portugalidades.

Neste clube, podemos sentir o Portugal das Bifanas, do Futebol, da Cerveja, mas também aquele atendimento curto e grosso bem à portuguesa. Uma sala ampla que nos faz viajar para as coletividades que existem um pouco por todo o Portugal e onde o tempo parece congelado.

Mas se a portugalidade vem inscrita nos espaços criados por portugueses noutros países, ela também viaja mundo fora na pessoa dos nossos artistas, dos mais populares aos mais eruditos, embaixadores que substituem o papel que o Estado, por mais que queira, não consegue desempenhar.

Sou, desde há muitos anos, fã de Ana Moura. E foi uma feliz coincidência ter tido a oportunidade de a ver e ouvir pela primeira vez, num contexto onde, numa sala repleta de dank u wel, também se ouvia muitos obrigados.

Descobri, nesse momento, que os Holandeses são fãs de fado. E que adoram Dulce Pontes, uma outra artista cujo trabalho detesto, mas que ainda assim, sou capaz de lhe reconhecer a capacidade de ter conseguido que muitos Holandeses decidissem aprender Português para a perceber.

Ana Moura tocou em Amesterdão num clube de Jazz. E se do Jazz se aproxima neste seu último álbum Desfado, aproximado estava também o ambiente criado numa ampla sala de jantar com luz ténue. Para estarmos numa casa de fados, só faltava o nosso vinho.

Ana Moura começou o concerto em Português, dirigindo-se em primeiro lugar à comunidade lusa presente na sala. Momento curioso, mas não menos revelador. Ela está habituada a cantar pelo mundo, e sabe que em qualquer canto terá portugueses que a querem ouvir. É também revelador de um assumir que a língua portuguesa é parte integrante da sua identidade, só depois comunicando com a língua de contacto, o Inglês.

Ouvir Ana Moura é não só uma oportunidade para escutar uma voz poderosa, madura e segura, como também para ver uma artista que sabe da importância do corpo falante. Porque o corpo também se exprime, e o Fado de Ana Moura fica ainda mais forte quando a sentimos por perto. Quando a simplicidade dos seus gestos transforma a atmosfera, lançando poemas alinhados numa ordem inteligente.

Sabendo que o Fado é uma representação cultural de Portugal, senti que a sensualidade que carrega atribui-lhe características diferenciadoras. Ana Moura é talvez a fadista que com vigor usa a subtileza do gesto sensual em sinestesia com os poemas que canta.

Além de ser uma excelente Fadista, é uma exímia performer, reformulando num mesmo espetáculo todos os conceitos. Inclusive o da portugalidade que existe dentro de cada um de nós, e daquela que podemos encontrar nos Holandeses que, sem perceberem os poemas, os entendem.

 

Autor: Jorge Rocha
Artista e Produtor independente
Amesterdão, Abril de 2014

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