Bienais de Lagos: um ponto de encontro há 30 anos

O ano está a chegar ao fim e por ele passaram muitos momentos que marcam uma década e outros que […]

O ano está a chegar ao fim e por ele passaram muitos momentos que marcam uma década e outros que revivem as décadas de outrora.

Em Lagos podemos perder-nos no exercício de retroversão, nas memórias que subtraímos mesmo quando não vivemos um tempo passado.

Sou assumidamente de uma geração que não renega o seu passado, mas que entende que é possível encontrar equilíbrio com o presente e o futuro, de forma a que ambos não se condicionem.

O hiato do tempo na cidade onde me encontro, é vivido constantemente na cultura. Há saudosismo à solta que facilmente é confundido com uma nostalgia da história. Mas há também histórias que de tão saudosas que são, iluminam com clareza o lugar que ocupam no passado e no presente.

Uma dessas histórias é a fábula de uma cidade que há 30 anos teve uma Bienal de Artes organizada por artistas e que, durante uma década, dinamizou tecidos artísticos, implicando recursos públicos em equilíbrio com o ingrediente principal, a vontade de fazer artes.

A Bienal de Lagos foi um evento organizado por um grupo de artistas e exército, principalmente pelas mãos de Joaquim Bravo, Vera Faria Gonçalves, Renato Cruz e Capitão Mendonça Luz, e que teve características distintas que permitem olhar as partes que existem num todo com a essência do princípio e do fim.

No início, ocorreu uma energia coletiva que foi capaz de catalisar gente em prol de uma iniciativa espelho de uma vontade de ser artista num Algarve abandonado pelo tempo, onde a vantagem estava exatamente em assumir essa periferia como motor de criação artística.

Ainda hoje, falar em criação artística em Lagos, é falar num território periférico, sabendo nós que todas essas barreiras foram diluídas pelos novos desafios sociais, e que, em última análise, o isolamento é também sequência de um ato consciente, mesmo no contexto em que os imperativos da vida nos impõem uma morada fixa.

As Bienais de Lagos eram organizadas à margem, numa cidade que oferecia a distância necessária de uma capital mais condicionada pelo sistema político e num modelo de partilha de recursos no qual o Exército Português estava formalmente implicado e tinha um papel ativo na produção da Bienal.

A articulação da palavra parceira representava assim uma estratégia ocasional que provocou uma dinâmica inédita entre artistas e o exército português.

Entre outros aspetos a salientar, há o facto da Bienal ter decorrido em espaços do exército e do transporte das obras de arte ter sido assumido pelos militares a partir de vários quartéis do país.

Esses espaços, que marcaram a cultura Lacobrigense, eram meras arrecadações da messe militar e importa aqui salientar que foram os artistas em conjunto com o exército que lhes elevaram o estatuto cultural, valorizando-os e criando Galerias de exposições, ainda antes das Bienais terem início. Nascia assim a Galeria do Mercado de Escravos.

Mas os tempos mudaram. Numa altura em que o Mercado de Escravos foi tomado pela autarquia e o armazém regimental ligado a exposições de propaganda do exército, importa salientar que estes dois edifícios constituíram-se como espaços de partilha durante décadas, e independentemente do juízo de valor sobre as exposições que ali decorreram, facto é que tinham um papel importante para muita gente, especialmente para os artesãos, e os tecnocratas que reorganizaram as suas valências não tiveram isso em consideração.

As Bienais de Lagos, como ponto de encontro, foram também em grande parte responsáveis pela criação do acervo da Câmara Municipal de Lagos, que ironicamente é hoje apelidado de “Local”.

Seria desejável que este Local pudesse prestigiar o legado da Bienal, dinamizando tecidos culturais e provocando convergência, criando condições para a preservação das coleções criteriosamente estudadas e chamando até si o depósito de obras de arte, nomeadamente aquelas que permanecem propriedade do Exército e cujo paradeiro importa descobrir, de forma a permitir que independentemente do seu proprietário (que neste caso é um organismo público), possam estar acessíveis e disponíveis para serem conservadas, expostas e estudadas.

E é aqui que chego ao fim. Um fim que acaba normalmente na sequência de um sistema deficitário. Num exercício de tentar juntar todos os catálogos das Bienais (note-se que, na Biblioteca Municipal de Lagos, não existem) reparei que os índices de qualidade descem drasticamente à medida que o tempo passa. Porquê? A resposta passa por entender que a Bienal nasceu de forma independente e cresceu ao longo das suas edições, colhendo apoios e visibilidade nos meandros nacionais e com isso aos poucos foi sendo controlada pelos meandros políticos e perdendo ao fulgor coletivo do seu início.

Por aqui passaram nomes como Pedro Cabrita Reis (presente na coleção Local com um quadro acidentalmente rasgado), Sérgio Pombo, António Sena ou Graça Morais. Por aqui passaram críticos de arte como Fernando Azevedo, Fernando Pernes ou Silvia Chicó. Por aqui assumiu-se a notoriedade construída com pouco envolvimento camarário no princípio da Bienal e dependente desse organismo já no seu final.

A decisão de extinguir este evento foi uma opção política, espelho de um tempo onde o investimento foi canalizado para o Centro Cultural de Lagos que abriu portas em 1992 e que ditou parte do destino das artes lacobrigenses.

Existem muitas histórias à solta, mas essas ficam melhor quando servidas numa mesa de amigos a saborear um bom vinho enquanto as línguas se soltam sem constrangimentos oficiais.

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