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Crónica à bruta

Deixem-me dizer-vos assim: eu acho que vocês estão todos parvos. A sério, acho mesmo.

Anda toda a gente muito ofendida com a Isabel Jonet, porque a presidente do Banco Alimentar (BA) foi à SIC Notícias dizer umas verdades sobre a forma como nos relacionamos com o consumo.

Basicamente, Jonet diz que andámos durante anos – nós, os portugueses – a viver acima das nossas possibilidades e que, agora, confrontados com a realidade, temos mais é que reduzir o consumo e adequar o nosso estilo de vida ao rendimento real. Nada mais verdadeiro.

A presidente do BA usa, a propósito, duas imagens perfeitas: o bife, que não se pode comer todos os dias; e o copo quando se escovava os dentes, substituído pela torneira aberta.

Os comentários de Jonet, que diz ainda que a pobreza em Portugal é conjuntural, estão a provocar uma onda de reações negativas e a mesma mulher que durante anos foi unanimemente reconhecida pelo seu trabalho solidário, é agora o mais recente ódio de estimação nacional. Ora, a dimensão do disparate torna clara uma coisa fundamental: ainda não percebemos.

Portugal tem dois ajustamentos em curso: o do Estado (e sobre todas as críticas são válidas) e o das pessoas.

Ainda não percebemos que Portugal é um país de parcos recursos, cheio de gente vaidosa, para quem a vida só o é se puder ser vista num televisor LED e fotografada por uma câmara de 12 megapixel.

Vamos lá ser claros: nem toda a gente pode ter casa própria, a maior parte de nós deveria passar a vida a andar de transportes públicos; uma ida ao restaurante é, sim, um luxo; e tomar o pequeno-almoço no café, só ao domingo.

Eu sei que muita gente já percebeu isto, sei também que há famílias para quem este padrão de vida é a realidade desde sempre, mas o português médio, aquele que acha que o aperto é passageiro, esse, ainda não cogitou que daqui por diante vai ser assim.

O desafio é reduzir o consumo (e sobre isso o meu amigo e investigador Nuno Cunha ainda vos há-de dar uma ensaboadela), regressar ao essencial e encontrar na vida prazeres que substituam a obsessão por gastar dinheiro – que nem sequer nos pertence, na maior parte dos casos.

Deveríamos fechar, pelo menos, metade dos centros comerciais, proibir o comércio de abrir aos domingos, construir parques e zonas verdes em todas as cidades, acabar com a televisão depois da meia-noite e desligar a Internet à mesma hora, metendo toda a gente na cama a ter orgasmos e a fazer filhos uns a seguir aos outros (filhos que podemos criar sem carrinhos de bebé de oitocentos euros e demais mariquices sem as quais, nós próprios, para grande espanto coletivo, sobrevivemos; e filhos que, quando a segurança social colapsar, o que pelos vistos está eminente, nos vão sustentar).

Isabel Jonet está certa. Em tudo. Trata-se de uma dolorosa verdade (e não se enganem: preferia que fosse diferente). O problema dela é o mesmo das colonoscopias: sabemos que precisamos de fazer uma, mas a ideia de um tubo a entrar-nos pela garagem arrepia-nos sempre que pensamos no assunto.

Autor: Nuno Andrade Ferreira (jornalista)

 

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